A emergência de maternidades “naturalizadas” como uma questão de igualdade e -cidadania

A emergência de maternidades “naturalizadas” como uma questão de igualdade e -cidadania

Tem-me interessado perceber como é que o naturalismo, enquanto referencial ético e normativo da contemporaneidade, se expressa no domínio da maternidade — em particular na gravidez, no parto e na criação dos filhos — e, por outro lado, que consequências é que a adesão a tais ideários acarreta para as relações de género, nomeadamente no contexto da vida familiar e da conjugalidade. Numa fase mais recente da minha pesquisa, uma terceira nascente teórica começa a ser explorada e é relativa à questão da cidadania e dos novos movimentos sociais. Será́ com base nela que me proponho agora pensar o ativismo, ou os ativismos, em torno da parentalidade e do nascimento, em particular.

(…)falar de ‘maternidade naturalizada’ merece que sejam feitas algumas salvaguardas. Primeiro, porque não é só de maternidade que trata a pesquisa e, depois, porque o uso de termos decorrentes do “natural” requer sempre alguma vigilância epistemológica(…)

Relativamente ao objeto, falar de ‘maternidade naturalizada’ merece que sejam feitas algumas salvaguardas. Primeiro, porque não é só de maternidade que trata a pesquisa e, depois, porque o uso de termos decorrentes do “natural” requer sempre alguma vigilância epistemológica. Ainda assim, não obstante as limitações e desafios que aqui reconheço, mantenho a expressão de ‘maternidade naturalizada’ por considerar que é aquela que melhor pode ilustrar o meu objeto de estudo. E, efetivamente, o meu objeto de estudo tem a ver com um modelo de maternidade que coloca em evidência as dimensões mais naturalizadas, biológicas e fisiológicas, da gravidez, do parto e da criação dos filhos. Trata-se de um modelo de experiência que pode ser entendido como resultado da intrusão dos valores naturalistas e ecologistas num domínio particular da vida biográfica, da vida pessoal e social que é a maternidade.

Para além disso, é um ideal que, tendo em conta o trabalho de terreno e a evidência empírica recolhida até ao momento, se consubstancia em práticas parentais diversas, das quais aqui posso dar alguns exemplos:

  • Os cuidados naturais durante a gravidez, parto e pós-parto, em detrimento dos modelos biomédicos de assistência e terapias médicas mais convencionais;
  • A procura ou defesa de um parto humanizado, menos medicalizado e, em alguns casos, planeado para ocorrer em casa;
  • A adesão a um tipo de maternidade pelo apego, concretizada em práticas como a amamentação prolongada, o co-sleeping, o baby-wearing e tudo o que suponha a promoção e favorecimento vínculo entre o bebé e o seu ou sua principal cuidador ou cuidadora;
  • A priorização de uma alimentação saudável e ecológica das crianças e de cuidados de saúde naturais na infância — e aqui, algumas vezes entra a opção pela não vacinação ou, mais frequentemente, a hipótese de adiar a vacinação ou de fazer uma escolha seletiva das vacinas a administrar nas crianças;
  • A adoção de uma educação e de uma comunicação não-autoritária, não condutivista e aquilo a que Catarina del Olmo (2013) chama de respeito pela “natureza delicada” dos bebés e crianças.
  • A não separação entre a criança e a mãe, ou o pai ou outro cuidador principal, durante os primeiros anos de vida. Sendo a “não separação” a base daquilo a que alguns autores chamam de parentalidade intensiva.
  • A prática de algum tipo de ritual e de celebração, quer da gravidez, quer do parto, quer associado ao bebé, e que nos remete para a ideia de ritualização e até de sacralização da maternidade, bastante comum nos discursos das entrevistadas.

Estes são, no fundo, alguns dos princípios e das práticas que se associa ao fenómeno em estudo e têm sido objeto do trabalho de campo levado a cabo. Precisamente, em termos das etapas da pesquisa e do trabalho de campo já realizado, este projeto tem sido desenvolvido a três níveis e em dois contextos regionais: Portugal e Espanha. Para já, acho importante identificar e refletir sobre algumas questões, que eu acho que podem servir de ponto de partida para uma discussão sobre este tema.

A primeira nota prende-se com a hipótese de pensarmos nesta questão, neste reforço dos valores naturalistas associados à parentalidade e à criação dos filhos, como uma resposta a um excesso de racionalização das condutas e dos discursos socialmente legitimados sobre cuidado e da educação das crianças. Se hoje em dia assistimos a uma valorização das práticas mais empáticas de cuidado infantil e do carácter supostamente natural do vínculo que nos une aos nossos filhos, não nos podemos esquecer que nem sempre foi assim ou que até há bem pouco tempo, esta perspetiva não era dominante. Durante décadas, as recomendações dadas pelos especialistas e pediatras eram bastante diferentes e pautavam-se por regras rígidas, cujo objetivo primordial residia numa espécie de programação ou formatação precoce dos bebés. Nesse contexto, a alimentação, o sono e a sua autonomia deviam ser regulados segundo padrões comportamentais e horários bem definidos, onde, para dar um exemplo, até o colo deveria ser dado em parcimónia. No fundo, a proposta é que à semelhança do que alguma literatura já propõe para a análise do movimento pela humanização do parto — que este seja percebido como uma resposta a um excesso de medicalização, de intervencionismo e de tecnologia do parto — possamos, também, olhar para a intrusão dos valores naturalistas na criação dos nossos filhos e filhas como uma reação ao que se considera um excesso de racionalização da cultura e, por conseguinte, nas condutas do cuidado de bebés e crianças.

Outra nota que me parece importante referir tem a ver com o facto de estas experiências de maternidade serem muito mais do que escolhas sobre a forma de ser mãe ou pai. Em rigor, o que tenho verificado é que tais opções em nada são alheias às escolhas que as pessoas fazem para os seus projetos identitários e projetos de vida. Pelo contrário, tudo é parte de um estilo de vida, onde as formas de estar na parentalidade se harmonizam com uma forma de estar na vida, em que a natureza, a ecologia e a centralidade dos cuidados, o humanismo e a consciência social e coletiva são aspetos transversalmente valorizados. E é interessante, quanto a mim, pensar nas formas de estar na parentalidade como uma dimensão que vem contribuir para a coerência de um projeto identitário, pessoal e coletivo.

Por fim, a última nota que queria deixar tem a ver com as relações de género e com a forma como uma maternidade mais intensiva pode interferir nessas relações. Por um lado, e daquilo que eu tenho visto nas entrevistas, há evidência de que estas escolhas nas experiências de maternidade possam representar um desafio às aspirações mais igualitárias, no sentido em que muitas vezes os discursos fazem uma apologia a uma formação ideológica do instinto natural, que vem reforçar o vínculo entre a maternidade e identidade feminina. Na mesma linha, verificamos também que, embora haja uma certa resistência, por parte das minhas entrevistadas, em assumir que o cuidado é um atributo das mulheres — ninguém vem dizer que o cuidado é um atributo exclusivo das mulheres — continua a haver, no entanto, facilidade em atribuir o cuidado a uma característica do feminino. E quando digo “o feminino”, digo em termos simbólicos. É recorrente observarmos discursos que enaltecem a mística de feminilidade.

Ainda assim, e apesar das perspetivas partilhadas serem iminentemente diferencialistas — porque surgem muito associadas às questões fisiológicas da diferença entre homens e mulheres, à gravidez, ao parto, à amamentação — eu diria que depois, na prática, a desigualdade objetiva entre homens e mulheres nestas famílias não é maior do que na generalidade dos contextos familiares. Eu até arriscaria dizer, embora não tenha evidência empírica para o fazer, que porventura será até menor. E digo isto porque os casos que eu estou a estudar pouco terão a ver com os casos comummente denunciados pela literatura feminista que faz a crítica da maternidade intensiva, em que as mulheres abdicam de uma promissora e estimulante carreira profissional, e ficam em casa a cuidar das crianças enquanto os seus parceiro e pais dos seus filhos e filhas, quais provedores, mantêm as suas atividades profissionais e se realizam socialmente através delas. Embora a minha pesquisa incida sobre práticas da ‘maternidade naturalizada’ nunca foi objetivo ignorar ou menorizar o papel que os homens pais assumem nos processos de gravidez e parto das suas companheiras ou no cuidado dos seus filhos e filhas. E, efetivamente, aquilo que observo nos casos que estudei é, na maioria das situações, uma implicação não negligenciável dos homens na vida privada e familiar. Para já, as mulheres que eu entrevistei são tão ou mais escolarizadas quanto os seus companheiros, há uma grande semelhança em termos das ocupações profissionais e das condições do trabalho dentro destes casais, e os companheiros destas mulheres exercem aquilo a que se pode cunhar de ‘paternidades cuidadoras’. Muitos casais desenvolvem, inclusivamente, estratégias de compensação da mãe, por esta assumir no âmbito de uma ‘maternidade naturalizada’ determinadas tarefas que lhe são exclusivas ou intransferíveis para o pai ou outro cuidador. Há pouco falávamos da amamentação, e o que eu percebi é que nas famílias com bebés ou crianças que são amamentados, é comum os pais homens fazerem outro tipo de tarefas para compensar ou substituir essa que é exclusiva da mãe e que não pode ser transmissível, digamos assim.

Portanto também há que olhar para essas estratégias de negociação, mesmo dentro da parentalidade natural e quando se promove a amamentação prolongada e etc., e que são estratégias que, sem uma aproximação real a estes contextos, nos podem passar despercebidas e obstar um entendimento mais profundo das dinâmicas em estudo. Esta questão é interessante, no meu ponto de vista, porque ilustra a implicação ou a entrega dos homens a um evento que à partida poderíamos pensar que não lhe corresponde muito e porque mostra como muitos homens se dispõem a substituir as suas mulheres nesta tarefa quando estas, em pleno pós-parto, não têm muita disponibilidade ou disposição para o fazer.

Fica claro que, quando pensamos na relação mais ou menos complicada e desafiante entre a parentalidade e a igualdade de género, importa analisar este fenómeno numa perspetiva crítica, porque só assim, indo além da superficialidade e das narrativas dominantes que insistem em antagonizar a maternidade ao feminismo ou a insistir na desvantagem inevitável das mulheres, é possível perceber estas nuances, e captar, por exemplo, estes sinais de um novo protagonismo masculino na valorização e nas formas mais naturalizadas, digamos assim, da parentalidade.

Dulce Morgado Neves

Adaptado de:

Neves, D. M. (2019). Maternidade naturalizada: Roteiro de um projeto. In D. M. Neves, M. Santos, & S. Pintassilgo (Eds.), Nascimento e outros debates: Género, parentalidade e criação (pp. 19–25). Lisboa: CIES-IUL.

O que querem as mulheres no parto? Algumas pistas do Babies Born Better Portugal.

O que querem as mulheres no parto? Algumas pistas do Babies Born Better Portugal.

 

O inquérito Babies Born Better é um projeto de investigação acolhido pelo CIES através do qual se procuram conhecer as experiências subjetivas do parto. Surgiu de um projeto internacional, face à constatação de que, quando se pretende avaliar, quando queremos medir a qualidade dos cuidados de saúde materna, quando queremos olhar para os serviços de saúde materna de forma mais ampla e, até, de forma mais crítica, no sentido de tentar perceber o que será necessário melhorar, o primeiro elemento a que recorremos são os indicadores de qualidade objetivos e, se quisermos ser ainda mais específicos, são os indicadores de mortalidade, mortalidade materna e mortalidade perinatal. Como reação a esta visão redutora e positivista, um grupo de investigadoras/es de um projeto de colaboração internacional de 4 anos, de 2010 a 2014, chamado COST Action IS0907, reuniu-se para trabalhar sobre estas questões e desenvolver um novo instrumento para aferição da qualidade dos cuidados de saúde materna que privilegiasse a experiência subjetiva das mulheres e a sua própria descrição dessa experiência. Existia, no grupo, o reconhecimento de que a centralidade dos indicadores objetivos não transmitia a diversidade regional entre países e dentro do próprio país, além de que revelava pouco potencial para a melhoria em países onde foram já atingidas taxas de mortalidade materna e perinatal aceitáveis. Além de insuficiente, o foco nestes indicadores ignora o potencial de uma avaliação e melhoria baseada na experiência que é vivida pelas pessoas, pelas mulheres, durante o parto.

O que parece ser fantástico e muito promissor neste inquérito é o facto de que, por um lado, ele é muito transversal. Portanto, é um inquérito que pode ser aplicado em diferentes contextos nacionais, com as suas diferenças e especificidades, como sejam o português, o norueguês ou o chinês, abrindo caminho para uma análise comparativa entre dois ou mais países. Apesar de transversal, o Babies Born Better não é um instrumento com respostas padronizadas. Pelo contrário, ele permite que cada pessoa que responde utilize as suas próprias palavras para responder. A segunda secção do inquérito, dedicada às experiências subjetivas de parto, era composta por 4 perguntas. Uma primeira pergunta sobre as melhores coisas dessa experiência; uma segunda pergunta sobre o que teriam mudado nessa experiência, se tivessem essa possibilidade; uma terceira pergunta onde se pedia uma descrição honesta da experiência do parto, e uma quarta pergunta onde de poderiam deixar comentários adicionais. Para facilitar, estas questões serão referidas como “as melhores coisas”, “o que mudaria”, “descrição da experiência” e “comentários”. Em cada uma das duas primeiras perguntas – melhores coisas e o que mudaria – as pessoas podiam dar até três respostas, ou seja, podiam escrever três palavras, ou três frases, ou três descrições mais longas. Na descrição da experiência podiam escrever até seis palavras ou frases. E a última questão, de comentário, aceitava uma palavra ou frase.

A nível internacional, este inquérito foi aplicado em cerca de 30 países e, em todos eles, foram feitas as mesmas perguntas. O inquérito foi traduzido em inúmeras línguas, para que pudesse ser aplicado em todos esses países. O trabalho foi maioritariamente assegurado por voluntários e voluntárias, uma vez que há muito poucos países que obtiveram algum tipo de financiamento para o desenvolvimento e a análise do BBB, daí que também haja diferenças importantes no número de respostas em cada país e na profundidade da análise dos dados disponíveis.

Em Portugal, nesta primeira versão do inquérito, obtivemos cerca de 1600 respostas. No entanto, quando olhámos para a segunda secção do inquérito, a qualitativa, a parte relativa às experiências de parto propriamente ditas, houve muitas pessoas que tinham dado respostas incompletas ou que não tinham sequer respondido às questões desta segunda secção. Como tal, fomos fazendo uma limpeza do número de inquiridas e acabámos com de 1348 respostas. É então sobre esse número que depois nós acabámos por trabalhar.

Olhando então só para a secção qualitativa, sobre as experiências de parto, porque é essa secção mais relevante do inquérito. Por agora, vamos apenas olhar para a forma como as pessoas responderam às diferentes questões. Inicialmente referi aquelas quatro questões da secção qualitativa: as melhores coisas, o que mudaria, a descrição da experiência e os comentários. É interessante só por si constatar que uma grande parte das respostas está concentrada na questão sobre “as melhores coisas”. As pessoas utilizaram mais palavras e utilizaram mais o seu espaço para descrever os aspetos positivos da experiência, e não utilizaram tantas palavras e tantas respostas para descrever os aspetos a melhorar. Isto é já digno de análise. Podemos simplesmente dizer que o parto, socialmente, ainda é tido como um evento positivo, é maioritariamente visto como algo feliz, que, como já foi dito antes, basta que a mãe e o bebé tenham sobrevivido para se considerar que correu tudo bem. Neste sentido, é também esta representação social do parto enquanto evento positivo que está aqui refletida nesta distribuição desigual do número de respostas às diferentes questões. E, no seu conteúdo, vemos também que, de facto, a maior parte das pessoas relatou experiências, de uma forma geral, positivas. Portanto, a questão sobre as “melhores coisas” permitia 3 palavras ou frases e obtivemos, em média, 2,7 respostas. A questão sobre “o que mudaria” permitia também 3 respostas e obtivemos, em média, apenas 2. A descrição da experiência, que aceitava até 6 palavras ou frases, teve, em média, 4 respostas. E cerca de metade das pessoas resolveu deixar um comentário também.

Dado o elevado número de respostas que obtivemos, a nossa análise à secção qualitativa recorreu inevitavelmente a estratégias quantitativas de análise, com a identificação da frequência das palavras usadas e o agrupamento dessas palavras em grupos. As quatro principais temáticas que surgiram acabam por estruturar a nossa análise e discussão dos resultados: atores profissionais, intervenções, serviços hospitalares e características dos cuidados. Ou seja, as mulheres quando relatam a sua experiência, neste inquérito, relataram-na fazendo menção aos profissionais, às intervenções que aconteceram, às características dos serviços hospitalares e, também, às características dos cuidados recebidos – em particular, as características da relação que foi estabelecida com os profissionais.

Uma estratégia de análise que se revelou interessante foi a comparação dos padrões de resposta de acordo com o local do parto – hospital público, hospital privado, e domicílio. Criámos então uma subamostra para cada um destes locais, com todos os partos do hospital público mais frequente, todos os partos do hospital privado mais frequente, e todos os partos no domicílio. Comparando a distribuição das categorias nestes três locais de parto, percebemos que:

  • Num hospital público, as respostas fazem referência aos diferentes profissionais, às intervenções, às características dos cuidados ou à relação que estabelecem com esses profissionais. Há um grande protagonismo dos profissionais, do seu papel e da sua intervenção nas descrições dos partos no hospital público. A presença dos profissionais é uma das componentes mais importantes e mais influentes, se não a mais influente, na experiência de parto deste grupo de mulheres.
  • No grupo do hospital privado não parece haver grande diferença com o grupo do hospital público, embora pareça haver uma referência ligeiramente menos frequente às intervenções e aos diferentes profissionais.
  • Mas quando olhámos para o grupo de mulheres que teve um parto em casa, a frequência das diferentes categorias nas respostas apresenta um padrão bem diferente. A experiência do parto é principalmente reportada não tanto fazendo referência aos profissionais, ao seu papel e às suas intervenções, mas principalmente à relação estabelecida, à componentes do cuidado, e às características do espaço de uma forma mais subjetiva, no sentido de referir que “havia calma, havia respeito”. Parece que, quando reportam a sua experiência de parto em casa, as mulheres recorrem muito mais à descrição das condições que tinham, o ambiente que era criado e a relação que se estabelecia com o profissional, e não tanto àquilo que o profissional fez ou o que não fez.

Concluindo, com esta análise tornou-se evidente que, para a grande maioria das mulheres, a experiência do parto é fortemente condicionada pela prestação dos profissionais de saúde e pelas suas competências relacionais, podendo influenciar positiva ou negativamente esta experiência. Num olhar mais minucioso, diferenciando os três locais de parto, não só a experiência subjetiva das mulheres é distinta, como a própria forma como estas experiências são reportadas parece revelar diferenças interessantes, tornando visíveis estratégias narrativas específicas para cada local – hospital publico, hospital privado e domicílio.

Mário Santos

Adaptado de:

Santos, M. (2019). Os cuidados de saúde materna na perspetiva das utilizadoras: Conclusões do Babies Born Better Portugal. In D. M. Neves, M. Santos, & S. Pintassilgo (Eds.), Nascimento e outros debates: Género, parentalidade e criação (pp. 65–71). Lisboa: CIES-IUL.

O LABORATÓRIO

O LABORATÓRIO

Este é um projeto que resulta da identificação, por parte de um grupo de investigadores, da necessidade de reconhecer e desenvolver um campo científico emergente em Portugal, decorrente do cruzamento de diferentes áreas do saber, no qual se analisam e estudam, a partir de perspetivas teóricas e metodológicas diferenciadas, as condições do nascimento, o seu enquadramento social, político, cultural, institucional, bem como resultados decorrentes dessas realidades.

Não se configura, aqui, o nascimento como um acontecimento reduzido ao momento do parto ou até da conceção. Entende-se o nascimento como um processo que começa muito antes desses momentos e das diferentes etapas que os interligam, sendo possível mapear um conjunto de dispositivos, normas e práticas sociais que o enquadram e o regulam. É importante fazê-lo no atual contexto de modernidade e de medicalização das sociedades. E também perceber como evoluiu a organização social do processo de nascimento, dos seus contornos, dos seus resultados a diferentes níveis, que instituições e agentes se encontram envolvidos nesse processo, como a posição de género também aí é determinante e como este processo surge socialmente legitimado.

O reconhecimento deste campo científico vem sendo feito, nomeadamente em Portugal, com mais intensidade nas últimas décadas e a partir de abordagens disciplinares diferenciadas que dialogam entre si, numa trajetória de construção de conhecimento, com diferentes momentos, fases e formatos.

Ora, tal significa que o desenvolvimento desta área do conhecimento decorre de domínios do saber já consolidados, nomeadamente, na sociologia – como a sociologia da família, do género, da saúde, da cultura e a sociologia política – e em outras ciências sociais que dialogam de perto com a sociologia, neste e noutros campos, como a demografia, a história, a antropologia e a psicologia.

Retomando um trabalho de pesquisa e de reflexão de Mário Santos, de 2014, é nesse sentido que se pode falar na dupla transversalidade do nascimento enquanto objeto de análise: uma transversalidade intra e interdisciplinar. Se por um lado, essa dupla transversalidade permite uma cobertura e uma abordagem analítica mais ricas, por outro, potencia a sua invisibilidade e, até, desintegração enquanto área de especialização autónoma, nomeadamente, na sociologia (Santos, 2014). No entanto, a abrangência que configura o nascimento como objeto de análise, sendo significativa, é, simultaneamente, muito importante para a consolidação de um domínio científico autónomo.

Em Portugal, para além da literatura científica produzida, tem-se verificado um alargar de encontros de divulgação e debate científico sobre o nascimento, bem como o estabelecimento de redes de trabalho e o surgimento de estruturas, não necessariamente académicas e/ou cientificamente enquadradas, que vêm trabalhando e refletindo em torno de diferentes dimensões do nascimento. Parece-nos importante, decorrido esse caminho, abrir espaço à formalização desse reconhecimento já naturalizado em diferentes contextos, no sentido de consolidar esta área do saber em Portugal.

Assim, a criação de um Laboratório de Estudos Sociais sobre o Nascimento surgirá como uma oportunidade de alargamento do debate e da partilha transversal de contributos científicos para o crescimento do conhecimento sobre o processo social que configura o nascimento.

O Laboratório será um espaço de trabalho, considerando 4 eixos de atuação fundamentais, que se alicerçam em: (1) Reconhecimento do saber produzido, isto é, da produção científica e analítica existente; (2) Construção de novo conhecimento; (3) Divulgação do conhecimento; e (4) Reflexão em torno do conhecimento.

O Laboratório será, ainda, um espaço em que os eixos de atuação definidos comunicarão

entre si, seguindo todos eles princípios comuns; um espaço onde possam convergir diferentes áreas científicas; um espaço de promoção de sinergias, redes e protocolos com outras estruturas e profissionais que trabalham nesta área do conhecimento; um espaço aberto à internacionalização.

Prevê-se, nesse sentido, que o Laboratório de Estudos Sociais sobre o Nascimento configure, também, uma estrutura de reflexão e intervenção social. Num momento em que novas realidades vão suscitando novos desafios a esta área do saber, como as práticas em torno da medicina reprodutiva, o uso de novas tecnologias, a bioética, a opção por alternativas a normas sociais e/ou médicas na maternidade, temos noção de que a discussão não se esgota na existência de conhecimento científico abrangente, no domínio das ciências sociais e da saúde, ou na existência e aplicação de protocolos hospitalares na especialidade da obstetrícia. É necessário um debate alargado, reflexivo e construtivo, para o qual concorrem todos os agentes envolvidos no processo social do nascimento, e cujo papel se define a partir do lugar que ocupam no campo social e da forma como exercem o papel que lhes é atribuído e socialmente legitimado.

Sónia Cardoso Pintassilgo

Referências

Santos, M. (2014), “Para uma sociologia da maternidade – Um retrato temático da investigação sociológica portuguesa”, CIES e-Working Papers, No. 194/2014.

Texto adaptado de:

Pintassilgo, S. C. (2019). Nascer.pt — Laboratório de Estudos Sociais sobre Nascimento. In D. M. Neves, M. Santos, & S. Pintassilgo (Eds.), Nascimento e outros debates: Género, parentalidade e criação (pp. 73–77). Lisboa: CIES-IUL.