Mais do que biologia: o que a ciência nos revela (e oculta) sobre o estigma menstrual

Violeta Alarcão, Investigadora Auxiliar integrada no CIES-Iscte e SocioDigital Lab e membro do nascer.pt

Introdução: o sangue que a sociedade não quer ver

A menstruação é frequentemente analisada a partir de um enquadramento estritamente biomédico, reduzida a flutuações hormonais e funções reprodutivas. Esta abordagem tende a ignorar que se trata igualmente de um fenómeno sociopolítico, cultural e profundamente emocional. A forma como produzimos conhecimento sobre a menstruação não funciona como um espelho neutro da realidade; é, antes, uma lente que seleciona o que ilumina e o que deixa na sombra.

Esta reflexão assenta numa análise crítica baseada em duas revisões sistemáticas, sínteses de evidência qualitativa de grande escala, que, no conjunto, reúnem mais de 180 estudos realizados em 51 países. O objetivo desta análise não é apenas compreender a experiência menstrual, mas interrogar de que forma a própria ciência, ao tentar explicá-la, pode acabar por silenciar ou obscurecer a agência de quem a vive (Alarcão, 2026).

A primeira revisão analisou 76 estudos qualitativos publicados entre 2000 e 2018 sobre menstruação em países de baixo e médio rendimento, envolvendo mais de 6.000 participantes em 35 países da África Subsaariana, do Sul da Ásia, da América Latina e do Médio Oriente (Hennegan et al., 2019). A partir destes dados, foi desenvolvido um modelo analítico da experiência menstrual que articula normas socioculturais, estigma e restrições de recursos com resultados em saúde e educação.

A segunda revisão sintetizou 104 estudos qualitativos publicados entre 1990 e 2020, abrangendo 16 países de rendimento elevado e as experiências de mais de 3.800 participantes (Barrington et al., 2021). Utilizando o modelo previamente desenvolvido, esta análise evidenciou diferenças importantes: o estigma deixou de ser interpretado predominantemente através de défices infraestruturais, passando a centrar-se em expectativas de género, normas de autocontrolo e regulação emocional.

Estas diferenças de foco não refletem apenas contextos empíricos distintos, mas também as condições epistémicas em que o conhecimento científico sobre a menstruação é produzido.

O estigma no olhar de quem estuda

Ao considerar os estudos científicos como artefactos culturais, produzidos em contextos disciplinares, políticos e institucionais específicos, torna-se possível observar padrões recorrentes nas narrativas sobre saúde e higiene menstrual. Em grande parte da literatura sobre países de baixo e médio rendimento, a investigação enfatiza persistentemente “tabus”, “segredo” e “falta de conhecimento”, frequentemente descurando as redes locais de significado, moralidade e respeito que estruturam essas práticas.

Nos países de rendimento elevado, a linguagem analítica desloca-se para conceitos como normas de género, estigma (frequentemente internalizado) e o que pode ser entendido como um verdadeiro imperativo da ocultação. A experiência menstrual é psicologizada: abandona-se o rótulo do “tabu”, mas mantém-se a responsabilização individual pela gestão discreta do corpo.

Esta disparidade sugere que aquilo que é frequentemente classificado como “crença tradicional” no Sul Global pode corresponder, na sua essência, às mesmas normas de género que disciplinam os corpos menstruantes no Norte Global, ainda que descritas através de categorias epistemicamente mais legítimas. 

Diferenças que podem ser apenas rótulos

Emoções como medo, vergonha e nojo atravessam diferentes contextos culturais. No entanto, as suas causas são narradas de forma profundamente distinta, consoante o olhar de quem investiga. Em países de rendimento elevado, enfatiza-se frequentemente a insatisfação com a imagem corporal ou o receio de não corresponder a expectativas profissionais. Já em contextos de menor rendimento, os estudos tendem a destacar relatos de risco espiritual ou físico, frequentemente interpretados como sinais de desinformação.

Ao serem frequentemente enquadrados como formas de “ignorância cultural”, estes medos acabam por ser desvalorizados, o que impede a ciência de reconhecer que o estigma — quer se manifeste como medo de feitiço, quer como receio de “não ser profissional” — produz efeitos semelhantes de silenciamento, ansiedade e sofrimento corporal. Para além disso, tais interpretações, ao menorizarem os significados e as experiências “diferentes”, reforçam as lógicas de injustiça epistémica e de hierarquização dos sistemas de conhecimento.

O imperativo da “boa feminilidade”

A disciplina do corpo menstrual manifesta-se pela menstrunormatividade (Persdotter, 2020), um ideal regulatório transnacional que define a menstruação legítima como regular, controlada e invisível. Esta ocultação obrigatória converte-se numa exigência moral e de mercado, onde o corpo respeitável deve ser inodoro e silencioso. O imperativo agrava-se na intersecção de género e geopolítica: marginaliza as realidades do Sul Global através de padrões de consumo ocidentais e força pessoas transgénero e não-binárias à ocultação como estratégia de sobrevivência identitária face à redução cisnormativa do ciclo menstrual (Bobel, 2019).

A emoção como resistência

As emoções não são meros subprodutos passivos do estigma. Podem funcionar como formas de agência, linguagem política e resistência simbólica. Reivindicar o que se sente — orgulho, raiva, desconforto ou ambivalência — é, em si, um ato de justiça social.

Um estudo com migrantes nepalesas nos Estados Unidos evidencia que a preservação de certas práticas menstruais tradicionais deve ser compreendida não sob o estigma do atraso cultural, mas como uma estratégia de resiliência psicológica para navegar o trauma da migração e fixar a identidade (Baumann et al., 2025). Em articulação com esta perspetiva de agência, Åkerman et al. (2024) identificam estratégias de resistência prática e simbólica por via das quais as populações jovens desafiam a “norma do silêncio”, reposicionando a menstruação como um tema legítimo de saúde pública e conversa aberta.

Sentir orgulho ou negociar conscientemente o desconforto permite às pessoas menstruantes recuperar autonomia sobre os seus corpos, desafiando narrativas que as definem como “sujas”, “incapazes” ou “excessivas”.

Um caminho para a justiça menstrual

Alcançar justiça menstrual exige mais do que infraestruturas adequadas ou a distribuição de produtos. Requer uma transformação profunda na forma como a ciência conceptualiza e narra o corpo que sangra. Isto implica desenvolver uma ciência sensível ao estigma, capaz de reconhecer a menstruação como uma biologia situada (Niewöhner & Lock, 2018), atravessada por relações de poder, género e emoção.

Sem esta mudança epistemológica, mesmo as políticas mais bem-intencionadas correm o risco de reproduzir os silêncios que procuram combater.

Referências

Åkerman, E., Wängborg, A., Persson, M., Schneiderman, K., & Klingberg-Allvin, M. (2024). Navigating menstrual stigma and norms: A qualitative study on young people’s menstrual experiences and strategies for improving menstrual health. BMC Public Health, 24, Article 3401. https://doi.org/10.1186/s12889-024-20936-5

Alarcão, V. (2026). Mapping Menstrual Stigma Through Emotions: A Reflexive Analysis of Systematic Reviews as Cultural Artifacts. Health Sociology Review, in press.

Barrington, D. J., Robinson, H. J., Wilson, E., & Hennegan, J. (2021). Experiences of menstruation in high income countries: A systematic review, qualitative evidence synthesis and comparison to low and middle-income countries. PLoS ONE, 16(7), e0255001. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0255001

Baumann, S., Wegner, I. M., Murthy, S., Schneiderman, K., & Winkler, I. T. (2025). More than one manifestation of agency: Relinquishing and/or retaining menstrual practices in Nepali migrant communities in the United States. Social Science & Medicine, 372, 117992. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2025.117992

Bobel, C. (2019). The managed body: Developing girls and menstrual health in the global south. Palgrave Macmillan.

Hennegan, J., Shannon, A. K., Rubli, J., Schwab, K. J., & Melendez-Torres, G. J. (2019). Women’s and girls’ experiences of menstruation in low-and middle-income countries: A systematic review and qualitative metasynthesis. PLoS Medicine, 16(5). https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1002803

Niewöhner, J., & Lock, M. (2018). Situating local biologies: Anthropological perspectives on environment/human entanglements. BioSocieties, 13(4), 681–697. https://doi.org/10.1057/s41292-017-0089-5

Persdotter, J. (2020). Introducing Menstrunormativity: Toward a Complex Understanding of ‘Menstrual Monsterings’. In C. Bobel, I. T. Winkler, B. Fahs, K. A. Hasson, E. A. Kissling, & T.-A. Roberts (Eds.), The Palgrave Handbook of Critical Menstruation Studies (pp. 357–373). https://doi.org/10.1007/978-981-15-0614-7_29