Parto respeitado: uma dimensão essencial da qualidade dos cuidados no nascimento
Mariana Torres, Clínica Matriz
A Semana Mundial do Parto Respeitado (International Week for Respecting Childbirth) é um movimento internacional assinalado anualmente em maio. A iniciativa teve início em 2004 e é coordenada pela European Network of Childbirth Associations, procurando promover a reflexão pública sobre respeito, direitos, segurança e qualidade dos cuidados no nascimento [1].
Esta é uma oportunidade para reforçar uma ideia central: a qualidade dos cuidados no nascimento não se mede apenas pelos resultados clínicos, mas também pela forma como as pessoas são acompanhadas, informadas e envolvidas ao longo de todo o processo.
Nos últimos anos, o tema tem ganhado maior visibilidade pública em Portugal, incluindo no debate legislativo e social em torno da violência obstétrica, da humanização dos cuidados e dos direitos no parto [2]. Esta discussão mostra que a experiência de nascimento não é apenas uma questão individual ou privada: é também uma dimensão relevante da qualidade, da segurança e da organização dos cuidados de saúde materna [3].
Falar de parto respeitado não significa defender um modelo único de parto. Não se trata de opor parto vaginal a cesariana, parto com ou sem analgesia, intervenção a ausência de intervenção. Trata-se, antes de mais, de reconhecer que um parto respeitado é uma dimensão essencial dos direitos humanos em saúde, e que a experiência do nascimento é profundamente influenciada por dimensões clínicas, relacionais, emocionais, sociais, culturais e estruturais [3,4].
Este ponto é particularmente importante num contexto em que se discute o aumento das cesarianas no SNS e a forma como diferentes intervenções são indicadas, explicadas e vividas pelas mulheres [5]. O que define a qualidade do cuidado não é apenas a realização ou não de uma intervenção, mas a sua adequação clínica, a forma como é comunicada e o modo como a mulher é envolvida na decisão.
A Organização Mundial da Saúde (2018) recomenda cuidados intraparto centrados na mulher, assentes no respeito pela dignidade, privacidade, comunicação eficaz, escolha informada, apoio contínuo e ausência de maus-tratos [4]. Esta abordagem enquadra o parto não apenas como um acontecimento clínico, mas como uma experiência significativa na vida reprodutiva, familiar e social.
A investigação tem mostrado que a satisfação com a experiência de parto depende de vários fatores: expectativas pessoais, capacidade de lidar com o processo, apoio recebido, envolvimento na tomada de decisão, relação com os profissionais de saúde, comunicação, confiança, continuidade de cuidados e utilização adequada de intervenções [6-11].
Importa sublinhar que uma experiência positiva de parto não corresponde necessariamente a uma experiência sem dor, sem medo ou sem intervenção. A evidência sugere que a intensidade da dor, por si só, não é o principal determinante da satisfação materna [11]. O que se revela particularmente relevante é a forma como a mulher compreende o que está a acontecer, sente que participa nas decisões e dispõe de opções de alívio da dor e apoio adequadas ao seu contexto.
Neste sentido, a preparação para o parto pode desempenhar um papel importante. Ao fornecer informação sobre o trabalho de parto, nascimento, intervenções possíveis, sinais de alerta e opções de cuidado, permite que grávidas e acompanhantes cheguem a esse momento com expectativas mais realistas e maior capacidade de participação. Um plano de parto, quando bem construído, pode ser uma ferramenta útil neste processo: não como um contrato rígido ou uma tentativa de controlar todos os acontecimentos, mas como uma forma de comunicar preferências, esclarecer dúvidas e favorecer decisões mais informadas entre a mulher, o acompanhante e a equipa clínica [6,11].
O apoio contínuo durante o trabalho de parto é outro elemento relevante. A presença de acompanhantes escolhidos pela grávida, bem como o apoio de profissionais de saúde e de doulas, pode contribuir para maior sensação de segurança, continuidade e confiança. A literatura aponta o maior apoio durante o parto como uma das estratégias associadas a uma perceção mais positiva da experiência [6].
Também a relação entre profissionais e utentes ocupa um lugar central. Ser tratada com respeito, receber explicações claras, ver a sua privacidade preservada, sentir que as suas preocupações são escutadas e que os seus valores são considerados são aspetos repetidamente identificados como determinantes da satisfação com os cuidados [7-10]. A competência técnica é indispensável, mas não substitui a qualidade da comunicação e da relação.
A humanização dos cuidados depende também das condições em que esses cuidados são prestados. A organização dos serviços, a privacidade, a existência de espaços adequados e a articulação entre urgência, pré-parto, parto e pós-parto influenciam a experiência das mulheres e das famílias [8,10]. Por isso, iniciativas de requalificação de serviços de Obstetrícia e Ginecologia, com maior atenção à privacidade e ao conforto das parturientes, devem ser vistas como parte de uma discussão mais ampla sobre qualidade assistencial.
A utilização de intervenções deve, por isso, ser enquadrada por critérios clínicos, proporcionalidade e consentimento informado [4,6]. Intervir pode ser necessário e, em muitas situações, decisivo para proteger a saúde da mulher e do bebé. Mas a intervenção deve ser explicada, contextualizada e, sempre que possível, discutida. O respeito no parto não exige ausência de intervenção; exige cuidado adequado, informado e humanizado.
Comemorar a Semana Mundial do Parto Respeitado é, assim, afirmar que segurança e respeito não são objetivos opostos. Pelo contrário: cuidados seguros devem ser também cuidados dignos, comunicativos e centrados na pessoa.
O parto respeitado não é um privilégio, nem uma preferência individual acessória. É uma dimensão essencial da qualidade dos cuidados em saúde materna.
Referências
- European Network of Childbirth Associations. International Week for Respecting Childbirth (IWRC). Disponível em: https://enca.info/iwrc/
- Assembleia da República. Lei n.º 33/2025, de 31 de março.
- World Health Organization. The prevention and elimination of disrespect and abuse during facility-based childbirth. WHO statement; 2014. Disponível em: WHO
- World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO; 2018.
- Entidade Reguladora da Saúde. Informação de Monitorização sobre Acesso e atividade dos prestadores de cuidados de saúde de obstetrícia – partos. 2025. Disponível em: ERS
- Taheri M, Takian A, Taghizadeh Z, Jafari N, Sarafraz N. Creating a positive perception of childbirth experience. Reprod Health. 2018;15:73.
- Chabbert M, Panagiotou D, Wendland J. Predictive factors of women’s subjective perception of childbirth experience. J Reprod Infant Psychol. 2021;39(1):43-66.
- Srivastava A, Avan BI, Rajbangshi P, Bhattacharyya S. Determinants of women’s satisfaction with maternal health care. BMC Pregnancy Childbirth. 2015;15:97.
- Anderson G, Zega M, D’Agostino F, et al. Meta-synthesis of the needs of women cared for by midwives during childbirth in hospitals. J Obstet Gynecol Neonatal Nurs. 2021;50(1):6-19.
- Vedeler C, Nilsen A, Blix E, Downe S, Eri TS. What women emphasise as important aspects of care in childbirth. BJOG. 2022;129(4):647-655.
- Christiaens W, Bracke P. Assessment of social psychological determinants of satisfaction with childbirth. BMC Pregnancy Childbirth. 2007;7:26.



