Depois da menopausa, o quê? Uma reflexão sobre o significado de “pós-menopausa”
18 de outubro — Dia Mundial da Menopausa
Violeta Alarcão, Investigadora Auxiliar integrada no CIES-Iscte e SocioDigital Lab e membro do nascer.pt
“Pós-menopausa” é uma categoria frequentemente utilizada para designar o período que sucede à menopausa. À primeira vista, trata-se de uma designação meramente temporal. No entanto, as categorias através das quais nomeamos os corpos e as transições corporais não são neutras: contribuem para definir o que é reconhecido como relevante, quais as experiências que se tornam visíveis e quais permanecem nas margens. É neste sentido que vale a pena interrogar o significado do prefixo “pós”. Pós-menopausa significa simplesmente um período posterior à menopausa? Ou encerra também uma determinada conceção do curso da vida, na qual a menstruação, a fertilidade e a idade reprodutiva constituem os principais referenciais para compreender os corpos?
A partir da perspetiva dos Critical Menstruation Studies, esta questão permite problematizar aquilo que poderíamos designar como menstruocentrismo: a tendência para organizar a compreensão da saúde menstrual em torno da menstruação e dos corpos em idade reprodutiva. Esta centralidade pode articular-se, por sua vez, com pressupostos cis-heteronormativos acerca de quem menstrua, quem reproduz e quais os corpos considerados normativos ou relevantes. A literatura crítica sobre menstruação tem precisamente procurado mostrar que estas categorias são produzidas no interior de relações sociais, culturais e políticas, e não apenas determinadas pela biologia (Bobel et al., 2020).
Questionar este enquadramento não significa retirar centralidade à menstruação enquanto experiência de saúde. Significa interrogar os limites daquilo que definimos como saúde menstrual e os sujeitos que essa definição torna visíveis. Esta questão emergiu de forma particularmente interessante no projeto Mas esta reconfiguração coloca uma questão ainda mais fundamental: será suficiente alargar aquilo que cabe dentro da expressão “saúde menstrual” sem interrogar a própria expressão? O problema pode estar não apenas nos limites da categoria, mas também nos pressupostos inscritos nos seus próprios termos. “Saúde” pode remeter para uma compreensão predominantemente biomédica, enquanto “menstrual” pode ser interpretado de forma demasiado restrita, como aquilo que diz respeito à menstruação enquanto sangramento. Ora, uma das contribuições dos Critical Menstruation Studies tem sido precisamente desafiar essa redução. Como argumenta Bobel (2020: 3-4), seria talvez mais adequado falar em critical menstrual studies, precisamente para reconhecer o ciclo menstrual como um fenómeno que se estende ao longo do curso da vida e não se limita à menstruação propriamente dita. Pensar desta forma permite deslocar a questão: não se trata de retirar a menstruação do centro, mas de questionar a sua utilização como limite do que pode ser considerado “menstrual”. O ciclo menstrual pode ser compreendido como um processo fisiológico e biopsicossocial complexo, que envolve, para além do sangramento, funções ovulatórias, alterações corporais, experiências reprodutivas e dimensões emocionais e sociais que se transformam ao longo do curso da vida. A questão passa, assim, não apenas por decidir quem ou o que incluir na saúde menstrual, mas por perguntar que conceção de menstrual queremos mobilizar quando falamos de saúde.
Esta reconfiguração torna-se ainda mais complexa quando consideramos os processos de medicalização e biomedicalização da menopausa. A sociologia tem demonstrado como experiências anteriormente interpretadas no âmbito da vida quotidiana podem ser progressivamente redefinidas em termos de sintomas, riscos, diagnósticos e intervenções. O conceito de biomedicalization chama a atenção para a expansão das práticas tecnocientíficas sobre os corpos, a saúde e os processos da vida (Clarke et al., 2003). No caso da menopausa, esta transformação não deve ser entendida simplesmente como negativa. A medicalização pode contribuir para reconhecer sofrimento, ampliar o acesso a cuidados e legitimar necessidades anteriormente negligenciadas. Pode, contudo, também contribuir para patologizar processos associados ao envelhecimento, sobretudo quando estes são predominantemente enquadrados como défices ou riscos que requerem intervenção.
Esta tensão adquire novas dimensões num contexto de crescente mercantilização da menopausa, no qual terapêuticas, suplementos, aplicações digitais, programas de bem-estar e outros produtos e serviços participam na definição das necessidades e das possíveis respostas. A literatura recente tem analisado este fenómeno através de conceitos como menopause capitalism, chamando a atenção para a articulação entre medicalização, discursos de autonomia e responsabilização individual e interesses comerciais (Cahn, Crawford, & Waldman, 2022; Orgad & Rottenberg, 2024). A questão sociológica não consiste, portanto, em opor simplesmente “medicina” e “experiência”, mas em perguntar quem define e legitima o que constitui um problema, quais as experiências que adquirem estatuto de necessidade e através de que saberes, instituições e interesses são produzidas as respostas disponíveis. A comercialização pode dar visibilidade a necessidades anteriormente negligenciadas, mas também pode enquadrar o envelhecimento e as transformações corporais como problemas individuais a gerir e consumir.
Esta discussão conduz-nos a uma dimensão linguística e epistemológica. As palavras que utilizamos para nomear as transições corporais transportam conceções particulares sobre o tempo, o corpo e o envelhecimento. A literatura sobre nomenclatura da menopausa evidencia a existência de diferentes definições e fronteiras temporais para conceitos como perimenopausa, menopausa e pós-menopausa, mostrando que estas categorias, embora necessárias à investigação e à prática clínica, não são inteiramente estáveis nem universais (Ambikairajah, Walsh, & Cherbuin, 2022).
“Pós-menopausa” privilegia, desde logo, uma lógica de anterioridade e posterioridade: há um momento definido como menopausa e um período que lhe sucede. Outros conceitos procuram nomear a transformação de forma diferente. Matrescência, por exemplo, foi introduzido para designar o processo de transformação associado ao tornar-se mãe, dando nome a uma transição e não apenas ao estado que dela [1]. Não se trata de escolher uma destas categorias como substituta universal das outras. Trata-se de reconhecer que diferentes vocabulários tornam diferentes dimensões da experiência mais ou menos pensáveis e socialmente reconhecíveis — e que as formas de compreender os corpos são também situadas histórica, social e culturalmente.
Esta questão é particularmente relevante quando pensamos na relação entre conhecimento e políticas públicas. Para que uma experiência seja incorporada nas políticas, é frequentemente necessário defini-la, operacionalizá-la e encontrar formas de a medir. No CROSS-MINDS, observámos como a transformação de experiências vividas em categorias e indicadores pode produzir simultaneamente reconhecimento e redução: torna determinadas dimensões visíveis para instituições e políticas, mas pode também privilegiar aquilo que é quantificável e deixar outras experiências menos facilmente representáveis. Por isso, a questão não é simplesmente saber se devemos ou não utilizar a expressão “pós-menopausa”. É compreender o que essa categoria torna visível, o que deixa de fora e que conceção do curso da vida transporta consigo.
A própria história recente da menopausa mostra, aliás, que as categorias biomédicas não são apenas impostas às pessoas. A sociedade civil e os movimentos de ativismo têm apropriado, contestado e transformado essas categorias para reivindicar reconhecimento, investigação, cuidados de saúde, direitos laborais e bem-estar. “Pós-menopausa” pode, assim, ser simultaneamente uma categoria de reconhecimento e uma categoria que merece ser problematizada. Pode dar nome a uma experiência e, ao mesmo tempo, organizar essa experiência a partir daquilo que já não está presente.
Talvez seja, por isso, mais produtivo perguntar não apenas “o que acontece depois da menopausa?”, mas: Que lugar ocupa a pós-menopausa na nossa conceção do curso da vida? Interrogar o “pós” não significa negar a existência de um depois. Significa questionar que significados atribuímos a esse depois — e que possibilidades de existência, reconhecimento e participação social imaginamos para além da centralidade da reprodução.
Referências
Ambikairajah, A., Walsh, E., & Cherbuin, N. (2022). A review of menopause nomenclature. Reproductive health, 19(1), 29. https://doi.org/10.1186/s12978-022-01336-7
Bobel, C., Winkler, I. T., Fahs, B., Hasson, K. A., Kissling, E. A., & Roberts, T.-A. (Eds.). (2020). The Palgrave Handbook of Critical Menstruation Studies. Palgrave Macmillan.
Cahn, N., Crawford, B. J., & Waldman, E. G. (2022). Managing and monitoring the menopausal body. University of Chicago Legal Forum, 2022(1), 41–69. https://chicagounbound.uchicago.edu/uclf/vol2022/iss1/3/
Clarke, A. E., Shim, J. K., Mamo, L., Fosket, J. R., & Fishman, J. R. (2003). Biomedicalization: Technoscientific transformations of health, illness, and U.S. biomedicine. American Sociological Review, 68(2), 161–194. https://doi.org/10.2307/1519765
Dillaway, H. E. (2005). Menopause is the “good old”: Women’s thoughts about reproductive aging. Gender & Society, 19(3), 398–417. https://doi.org/10.1177/0891243204271350
Orgad, S., & Rottenberg, C. (2024). Mediating menopause: Feminism, neoliberalism, and biomedicalisation. Feminist Theory, 25(3), 338-358. https://doi.org/10.1177/14647001231182030
[1] O termo “matrescência” foi cunhado originalmente pela antropóloga Dana Raphael na sua obra The Tender Gift: Breastfeeding (1973). O conceito foi posteriormente resgatado, sistematizado e expandido para a psicologia do desenvolvimento por Aurélie Athan, cujo enquadramento teórico contemporâneo e definição operacional podem ser consultados em Matrescence.com.


