Muito para além da gravidez: o papel das comunidades online na maternidade e na parentalidade
Jéssica Tavares, estudante do Mestrado em Sociologia no Iscte- Instituto Universitário de Lisboa e membro do nascer.pt
Introdução
A maternidade nunca foi vivida de forma isolada. A literatura demonstra que o apoio social constitui um importante determinante da saúde e do bem-estar, desempenhando um papel particularmente relevante durante períodos de transição e de maior exigência, como a gravidez, o pós-parto e a adaptação à parentalidade (Berkman et al., 2000; House, 1981). A existência de redes de suporte pode contribuir para uma adaptação mais positiva à maternidade, para o reforço da confiança parental e para a redução do stress e do isolamento social (Cohen & Wills, 1985; Leahy-Warren et al., 2012).
Ao longo de várias gerações, estas redes de apoio foram construídas sobretudo através da família, dos amigos, da comunidade e dos profissionais de saúde, que constituíam importantes fontes de informação e suporte durante a transição para a parentalidade (Dennis, 2003; Plantin & Daneback, 2009). Era neste contexto de proximidade que se transmitiam conhecimentos, se esclareciam dúvidas e se partilhavam experiências relacionadas com a gravidez, o parto e os cuidados aos filhos (Dennis, 2003; Leahy-Warren et al., 2012). Mais do que um espaço de transmissão de informação, estas relações permitiam encontrar apoio emocional, compreensão e recursos importantes para enfrentar os desafios associados à maternidade (Berkman et al., 2000; Dennis, 2003).
As transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas alteraram significativamente a forma como as relações sociais e as redes de suporte são construídas e mobilizadas (Castells, 2010; Wellman, 2001). Na sociedade em rede, as relações sociais deixaram de depender exclusivamente da proximidade geográfica, passando também a desenvolver-se através de espaços digitais que permitem estabelecer e manter ligações entre pessoas geograficamente distantes ou que partilham interesses, necessidades e experiências semelhantes (Rainie & Wellman, 2012; Wellman, 2001). Assim, às redes de apoio presenciais vieram juntar-se comunidades online que ampliaram as possibilidades de contacto, de partilha de informação e de apoio entre pessoas com experiências ou necessidades comuns (Lupton et al., 2016; Plantin & Daneback, 2009). Contudo, o crescimento destas comunidades pode não representar apenas um alargamento das redes de suporte já existentes. Em alguns contextos, a procura de apoio online parece adquirir particular relevância perante situações de isolamento social ou quando as redes familiares e comunitárias próximas não conseguem proporcionar o apoio, a experiência ou os recursos de que as mães necessitam, permitindo que os espaços digitais funcionem também como forma de compensação perante limitações das redes presenciais (Gleeson et al., 2022; Morse et al., 2021). Deste modo, a relação entre apoio presencial e digital não deve ser entendida exclusivamente numa lógica de complementaridade: consoante os recursos disponíveis e as circunstâncias de cada família, as comunidades online podem ampliar redes existentes, compensar fragilidades nas redes de proximidade ou assumir parcialmente funções de suporte que anteriormente seriam procuradas em contextos presenciais.
A utilização dos meios digitais durante a gravidez e a parentalidade tornou-se parte integrante das práticas contemporâneas de procura de informação e apoio (Lupton, 2016; Lupton et al., 2016). Grávidas, mães e pais recorrem à Internet e às comunidades online para esclarecer dúvidas, procurar informação relacionada com a saúde e os cuidados aos filhos, conhecer as experiências de outras famílias e encontrar apoio perante dificuldades do quotidiano (Kubb & Foran, 2020; Madge & O’Connor, 2006; Plantin & Daneback, 2009). A investigação mostra que estas comunidades são particularmente valorizadas pela rapidez com que permitem aceder a informação, pela disponibilidade permanente e pela possibilidade de contactar pessoas que vivem situações semelhantes, independentemente da hora ou da localização geográfica (Heaperman & Andrews, 2020; Lupton, 2016; Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). Esta disponibilidade contínua permite que a procura de informação, apoio e partilha de experiências ocorra no momento em que a necessidade surge, sem ficar condicionada aos horários dos serviços ou à proximidade física entre os participantes (Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). Contudo, esta característica das comunidades digitais pode também ser compreendida à luz das transformações das próprias redes de proximidade. A família alargada, os amigos e a vizinhança constituíram importantes fontes informais de conhecimento e apoio à parentalidade, mas transformações como a maior mobilidade geográfica e a menor disponibilidade ou proximidade de algumas destas relações podem limitar o acesso quotidiano a essas formas tradicionais de suporte (Gleeson, 2021; Hagge & Schacht, 2024; Hünteler & Mulder, 2020). Paralelamente, a parentalidade contemporânea caracteriza-se também por uma crescente presença de fontes especializadas e de conhecimento pericial na procura de informação e orientação (Cucchiara & Steinbugler, 2021). Neste contexto, as comunidades online podem ser entendidas não apenas como um recurso que se acrescenta às redes presenciais, mas também, em determinadas circunstâncias, como uma forma de compensar limitações das redes informais de proximidade, recriando no espaço digital possibilidades de contacto e apoio quotidiano (Gleeson et al., 2022).
Para muitas mulheres, estes espaços constituem também uma fonte de apoio social entre pares, permitindo partilhar experiências e conhecimentos com outras mães e futuras mães que vivem situações semelhantes (Jiang & Zhu, 2022; Xie et al., 2021). A possibilidade de contactar pessoas que atravessam experiências semelhantes pode proporcionar apoio emocional, reconhecimento e sentimento de pertença, contribuindo para diminuir a perceção de isolamento associada a algumas experiências da maternidade (Madge & O’Connor, 2006; Moore et al., 2020). O apoio social percebido nestas comunidades pode assumir particular relevância para o bem-estar materno, tendo sido encontradas associações entre níveis mais elevados de apoio social online e melhores indicadores de saúde mental durante a gravidez e o período pós-natal (Jiang & Zhu, 2022). O conhecimento experiencial partilhado pelos membros destas comunidades constitui igualmente um recurso valorizado pelas mães, permitindo comparar experiências, conhecer diferentes estratégias e interpretar situações vividas no quotidiano da parentalidade (Xie et al., 2021).
Nestes espaços digitais podem ainda coexistir diferentes fontes de conhecimento e apoio. Para além da interação entre mães, pais e outras famílias, algumas comunidades contam com a participação ou moderação de profissionais de saúde, criando oportunidades de contacto entre conhecimento profissional e experiência vivida (Morse & Brown, 2022; Plantin & Daneback, 2009). A literatura documenta, nomeadamente, a participação de profissionais em comunidades digitais de apoio à parentalidade e à amamentação, onde podem contribuir para o esclarecimento de dúvidas e para a disponibilização de informação profissional (Morse & Brown, 2022; Plantin & Daneback, 2009). Esta interação permite aproximar diferentes formas de conhecimento, fazendo coexistir a informação profissional com o conhecimento construído através das experiências quotidianas das famílias, embora ambos mantenham naturezas e níveis de autoridade distintos (Strand & Westergren, 2024; Xie et al., 2021).
Mais do que um reflexo da crescente utilização das redes sociais, o desenvolvimento destas comunidades evidencia uma transformação na forma como as famílias constroem e mobilizam as suas redes de apoio (Lupton et al., 2016; Rainie & Wellman, 2012). Atualmente, uma mãe pode recorrer ao acompanhamento do seu médico ou enfermeiro, esclarecer uma dúvida numa comunidade online e encontrar conforto na experiência partilhada por outras famílias que enfrentaram desafios semelhantes, mobilizando diferentes fontes de informação e apoio consoante as necessidades que surgem no quotidiano (Moon et al., 2019; Strand & Westergren, 2024). As redes presenciais constituídas pela família, pelos amigos, pela comunidade e pelos profissionais de saúde passam, assim, a coexistir com relações estabelecidas em ambientes digitais, ampliando as possibilidades de acesso a informação, experiências e diferentes formas de suporte (Plantin & Daneback, 2009; Wellman, 2001). Esta complementaridade sugere que as comunidades digitais não vieram necessariamente substituir as redes tradicionais de apoio nem os serviços de saúde, mas ampliar o conjunto de recursos que as famílias podem mobilizar ao longo da gravidez, do pós-parto e das diferentes etapas da parentalidade (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009).
Perante esta realidade, importa refletir sobre o papel que estas comunidades desempenham no acompanhamento das famílias. Estarão apenas a complementar os cuidados prestados pelos serviços de saúde ou estarão também a responder a necessidades de informação, apoio emocional e continuidade do suporte que persistem muito para além da gravidez? Compreender esta transformação constitui um passo importante para repensar a articulação entre as redes de suporte presenciais, os profissionais de saúde e as comunidades digitais, procurando compreender de que forma estes diferentes recursos podem coexistir e complementar-se na resposta às necessidades das famílias ao longo das diferentes etapas da parentalidade (Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024).
Porque procuram tantas famílias as comunidades online?
A crescente utilização da Internet e das redes sociais durante a gravidez e a parentalidade não pode ser explicada apenas pela expansão das tecnologias digitais, uma vez que estes recursos são procurados para responder a diferentes necessidades de informação, orientação, partilha de experiências e apoio ao longo da maternidade e da parentalidade (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009; Xie et al., 2021). As comunidades online constituem, neste contexto, uma fonte complementar de informação e suporte, utilizada em articulação com os profissionais de saúde, a família, os amigos e outras fontes de aconselhamento (Moon et al., 2019; Plantin & Daneback, 2009).
Contudo, a procura destas comunidades não resulta apenas da necessidade de obter informação sobre a gravidez, a saúde ou os cuidados às crianças (Madge & O’Connor, 2006; Xie et al., 2021). Muitas mães recorrem igualmente a estes espaços para conhecer as experiências de outras mulheres, comparar diferentes perspetivas e compreender como outras famílias lidaram com situações semelhantes (Madge & O’Connor, 2006; Moon et al., 2019). O conhecimento construído a partir da experiência quotidiana assume, assim, um lugar relevante nas interações desenvolvidas nestas comunidades, onde as participantes formulam perguntas, partilham respostas e avaliam a pertinência da informação recebida (Xie et al., 2021).
A possibilidade de contactar pessoas que atravessam experiências ou dificuldades semelhantes pode proporcionar reconhecimento, compreensão e apoio emocional durante a transição para a maternidade (Madge & O’Connor, 2006; Moore et al., 2020). A meta-síntese realizada por Moore et al. (2020) mostrou que os fóruns online podem constituir espaços percebidos como seguros para falar sobre experiências maternas difíceis, receber apoio virtual e lidar com sentimentos de estigma. A interação entre pares pode, deste modo, contribuir para diminuir a perceção de isolamento e favorecer um sentimento de pertença entre mulheres que se reconhecem nas experiências partilhadas por outras participantes (Madge & O’Connor, 2006; Moore et al., 2020).
Estas comunidades permitem também estabelecer relações entre pessoas que podem nunca se ter encontrado presencialmente, mas que partilham experiências, dúvidas e necessidades relacionadas com a maternidade e a parentalidade (Madge & O’Connor, 2006; Plantin & Daneback, 2009). Nestes espaços, a identificação com experiências comuns pode tornar-se particularmente relevante para a procura de informação e apoio, permitindo construir relações que ultrapassam a proximidade física (Lupton, 2016; Madge & O’Connor, 2006). A Internet amplia, assim, as possibilidades de acesso a redes de suporte para além das relações familiares, comunitárias e geograficamente próximas (Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024).
A utilização destas comunidades não significa necessariamente que as famílias rejeitem ou pretendam substituir o acompanhamento prestado pelos profissionais de saúde (Lupton, 2016; Moon et al., 2019). Os pais tendem a combinar a informação obtida online com outras fontes, integrando-a nos seus processos de interpretação e decisão sobre a saúde e os cuidados aos filhos (Moon et al., 2019; Strand & Westergren, 2024). As comunidades digitais parecem, por isso, responder a necessidades que não coincidem integralmente com aquelas que são satisfeitas numa consulta, proporcionando acesso contínuo à informação, contacto com experiências semelhantes e oportunidades de apoio entre pares (Lupton, 2016; Plantin & Daneback, 2009).
As comunidades online como continuidade das redes de apoio
As comunidades online integram-se nas redes de apoio das famílias sobretudo numa lógica de complementaridade com outras fontes de informação e suporte. A sua utilização não significa necessariamente que as famílias rejeitem ou pretendam substituir o acompanhamento prestado pelos profissionais de saúde, uma vez que os pais tendem a combinar a informação obtida online com outras fontes, integrando-a nos seus processos de interpretação e decisão sobre a saúde e os cuidados aos filhos (Moon et al., 2019; Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). As comunidades digitais permitem, deste modo, mobilizar diferentes formas de informação e apoio em articulação com os profissionais de saúde, as redes pessoais e outros recursos disponíveis às famílias.
Uma dimensão relevante destes espaços é a possibilidade de contactar outras famílias e aceder a conhecimentos construídos através da experiência quotidiana. Mães e pais podem partilhar dificuldades, estratégias e interpretações e conhecer diferentes formas de lidar com situações relacionadas com a maternidade e a parentalidade (Madge & O’Connor, 2006; Xie et al., 2021). O conhecimento experiencial acrescenta, assim, uma dimensão distinta às redes de apoio, baseada na experiência vivida e na interação entre pares, que pode coexistir com outras fontes de informação e orientação (Strand & Westergren, 2024; Xie et al., 2021).
Simultaneamente, algumas comunidades contam com a participação ou moderação de profissionais de saúde. A revisão de Plantin e Daneback (2009) mostrou que a Internet é utilizada tanto por pais que procuram informação e apoio como por profissionais que disponibilizam conteúdos e orientação relacionados com a saúde, os filhos e a vida familiar. O estudo de Morse e Brown (2022) demonstrou igualmente que algumas comunidades de Facebook dedicadas ao apoio à amamentação contavam com participação ou moderação de parteiras, sendo essa presença valorizada por várias participantes. A participação de profissionais pode facilitar o acesso a informação especializada e aproximar as famílias de recursos ou cuidados presenciais quando necessário (Morse & Brown, 2022).
As comunidades online tornam-se, assim, espaços onde a informação profissional e o conhecimento experiencial podem coexistir e complementar-se, embora mantenham naturezas e níveis de autoridade distintos (Strand & Westergren, 2024; Xie et al., 2021). A sua relevância parece residir, deste modo, não na substituição de uma fonte de apoio por outra, mas na possibilidade de ampliar e diversificar os recursos que as famílias podem mobilizar ao longo da maternidade e da parentalidade.
Muito para além da gravidez
A necessidade de apoio também não termina com o nascimento da criança, uma vez que os pais continuam a procurar informação sobre alimentação, sono, sintomas, desenvolvimento e outros aspetos dos cuidados infantis (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009). O conhecimento necessário ao exercício da parentalidade abrange diferentes dimensões do desenvolvimento, da saúde, da segurança e dos cuidados à criança, podendo ser construído através de diferentes fontes de informação, apoio e experiência (Bornstein et al., 2010). Os temas procurados e discutidos online modificam-se à medida que as necessidades da família e da criança evoluem, acompanhando diferentes situações de saúde, cuidado e vida familiar (Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). A literatura sobre maternidade e parentalidade digital mostra, por exemplo, que as interações podem abranger a gravidez e o pós-parto, os cuidados ao bebé, a amamentação, o desenvolvimento da criança e questões mais amplas relacionadas com o exercício da parentalidade (Lupton, 2016; Morse & Brown, 2022; Xie et al., 2021).
Esta evolução evidencia que as necessidades das famílias se transformam à medida que os filhos crescem e que a parentalidade coloca novos desafios (Kubb & Foran, 2020; Strand & Westergren, 2024). As comunidades podem, por isso, permanecer relevantes para além da fase inicial de transição para a maternidade, permitindo às famílias regressar a estes espaços ou continuar a utilizá-los quando surgem novas dúvidas relacionadas com a saúde, o desenvolvimento e os cuidados aos filhos (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). Neste sentido, a relevância das comunidades digitais não se circunscreve necessariamente à gravidez ou ao pós-parto, podendo acompanhar diferentes momentos da parentalidade à medida que se transformam as necessidades de informação, experiência partilhada e suporte.
O desafio da complementaridade: poderão as comunidades online substituir os serviços de saúde?
A crescente utilização das comunidades online na maternidade e na parentalidade tem suscitado um debate sobre o lugar que estes espaços ocupam nas redes de apoio das famílias. Apesar da sua importância crescente, a literatura indica que as comunidades digitais não substituem os cuidados prestados pelos profissionais de saúde, desempenhando sobretudo uma função complementar no acesso à informação, no apoio emocional e na partilha de experiências (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009).
Os serviços de saúde desempenham funções que não podem ser asseguradas pelas comunidades digitais, nomeadamente a avaliação clínica, o diagnóstico, a definição de intervenções terapêuticas e o acompanhamento individualizado da grávida, da puérpera e da criança (World Health Organization, 2022). As comunidades online respondem, por sua vez, a necessidades de natureza distinta, proporcionando espaços onde as famílias podem esclarecer dúvidas do quotidiano, trocar experiências e encontrar apoio entre pares para além dos momentos formais de contacto com os serviços de saúde (Lupton, 2016; Xie et al., 2021).
A investigação demonstra igualmente que os pais não recorrem necessariamente à informação disponível online de forma acrítica. Muitos procuram comparar diferentes fontes, avaliar a credibilidade dos conteúdos e articular a informação encontrada na Internet com o aconselhamento recebido por parte dos profissionais de saúde (Kubb & Foran, 2020; Moon et al., 2019; Strand & Westergren, 2024). Esta utilização combinada evidencia que as famílias podem mobilizar diferentes recursos de informação e apoio de acordo com as suas necessidades, integrando os conteúdos encontrados online nos seus processos de interpretação e tomada de decisão (Plantin & Daneback, 2009).
Contudo, a circulação de informação nas comunidades digitais também apresenta desafios. A qualidade e a credibilidade dos conteúdos disponíveis são variáveis, podendo coexistir informação baseada na evidência com experiências individuais, opiniões pessoais e recomendações cuja qualidade nem sempre é facilmente avaliada pelos utilizadores (Kubb & Foran, 2020; Strand & Westergren, 2024). Neste contexto, a literacia em saúde digital assume particular importância, uma vez que envolve a capacidade de procurar, compreender, avaliar criticamente e utilizar informação de saúde obtida através de meios eletrónicos (Norman & Skinner, 2006). O desenvolvimento destas competências pode ajudar as famílias a identificar fontes credíveis, interpretar criticamente a informação disponível e utilizá-la de forma mais informada nos seus processos de decisão (Norman & Skinner, 2006).
A participação de profissionais de saúde em algumas comunidades online pode constituir um recurso adicional para as famílias. A literatura documenta a presença de profissionais em espaços digitais relacionados com a parentalidade e, especificamente, em comunidades de apoio à amamentação, onde a participação ou moderação profissional pode contribuir para disponibilizar informação especializada, esclarecer dúvidas e orientar as participantes para recursos ou cuidados adequados quando necessário (Morse & Brown, 2022; Plantin & Daneback, 2009). Esta presença pode igualmente contribuir para aproximar a informação baseada na evidência das famílias e ajudar a contrariar conteúdos inadequados ou pouco fiáveis que circulam nos espaços digitais (Morse & Brown, 2022; Plantin & Daneback, 2009). Simultaneamente, estas comunidades tornam mais visíveis dúvidas, preocupações, expectativas e dificuldades experienciadas pelas famílias no quotidiano, proporcionando aos profissionais um contacto diferente com questões que nem sempre emergem no contexto formal da consulta (Lupton, 2016; Plantin & Daneback, 2009).
Do ponto de vista sociológico, esta realidade traduz uma transformação mais ampla na forma como as redes de suporte são construídas e mobilizadas. As comunidades digitais permitem alargar as relações sociais para além dos círculos familiares e geograficamente próximos, facilitando o acesso a informação, experiências e outros recursos através das ligações estabelecidas entre os seus participantes (Rainie & Wellman, 2012; Wellman, 2001). Estas transformações podem ser interpretadas à luz do conceito de capital social, entendido, apesar das diferentes formulações teóricas, como o acesso a recursos que decorrem das relações sociais e das redes nas quais os indivíduos se encontram inseridos (Bourdieu, 1986; Coleman, 1988; Putnam, 2000). Nesta perspetiva, as comunidades online podem ampliar os recursos informacionais e relacionais potencialmente acessíveis às famílias e diversificar as fontes de apoio que estas conseguem mobilizar ao longo da maternidade e da parentalidade (Bourdieu, 1986; Wellman, 2001).
A investigação sobre a utilização da Internet pelas famílias aponta para uma combinação entre fontes digitais, redes pessoais e aconselhamento profissional, em vez de uma simples substituição de umas pelas outras (Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). Neste sentido, a articulação entre cuidados formais, redes familiares, apoio entre pares e comunidades digitais poderá contribuir para respostas mais integradas, acessíveis e próximas das formas como as famílias procuram efetivamente informação e apoio ao longo das diferentes etapas da maternidade e da parentalidade (Strand & Westergren, 2024). Reconhecer esta complementaridade permite, assim, deslocar a discussão da oposição entre apoio digital e cuidados presenciais para a compreensão de como diferentes recursos podem coexistir na resposta às necessidades das famílias.
Conclusão
A transformação das redes de apoio à maternidade e à parentalidade acompanha mudanças mais amplas nas formas de comunicação, interação social e acesso à informação. Às redes informais de proximidade, constituídas pela família, pelos amigos e pela comunidade, e às fontes formais de apoio pericial, como as instituições e os profissionais de saúde, juntam-se atualmente novas formas de interação e suporte mediadas pelas tecnologias digitais (Berkman et al., 2000; Lupton et al., 2016; Plantin & Daneback, 2009; Rainie & Wellman, 2012).
A literatura analisada mostra que as comunidades online podem desempenhar diferentes funções nas redes de apoio das famílias. A disponibilidade permanente, a rapidez no acesso à informação, o contacto com pessoas que atravessam experiências semelhantes e a possibilidade de encontrar apoio entre pares tornam estes espaços particularmente relevantes em momentos em que surgem dúvidas ou dificuldades no quotidiano (Heaperman & Andrews, 2020; Lupton, 2016; Strand & Westergren, 2024). Para algumas mulheres, estas comunidades podem ainda constituir importantes fontes de apoio social, reconhecimento e pertença, sobretudo quando permitem contactar outras pessoas que compreendem experiências semelhantes (Jiang & Zhu, 2022; Madge & O’Connor, 2006; Moore et al., 2020).
A necessidade de apoio, contudo, não termina com o nascimento da criança. As preocupações transformam-se à medida que os filhos crescem e surgem novas questões relacionadas com a saúde, a alimentação, o sono, o desenvolvimento e outros desafios da parentalidade (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). As comunidades digitais podem, deste modo, permanecer como um recurso ao qual as famílias regressam ou no qual permanecem, acompanhando a transformação progressiva das suas necessidades de informação, experiência partilhada e suporte (Kubb & Foran, 2020; Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024).
Reconhecer a importância destes espaços não significa, porém, considerá-los substitutos dos serviços de saúde. A avaliação clínica, o diagnóstico e o acompanhamento individualizado permanecem funções dos profissionais e das instituições de saúde (World Health Organization, 2022). As comunidades digitais apresentam igualmente desafios relacionados com a qualidade e a credibilidade da informação, tornando fundamental o desenvolvimento da literacia em saúde digital e da capacidade crítica dos utilizadores (Kubb & Foran, 2020; Norman & Skinner, 2006).
Para os profissionais de saúde, estas comunidades podem constituir uma oportunidade para compreender dúvidas, preocupações e necessidades que nem sempre emergem no contexto formal da consulta e para pensar formas de comunicação mais próximas das experiências quotidianas das famílias (Lupton, 2016; Plantin & Daneback, 2009). A participação profissional em ambientes digitais levanta, contudo, questões relacionadas com a definição de limites entre informação geral e aconselhamento individualizado, com a responsabilidade profissional e com a preservação das fronteiras entre a interação nas redes sociais e a relação estabelecida no contexto dos cuidados de saúde. A literatura sobre utilização profissional das redes sociais tem salientado precisamente a necessidade de considerar questões de profissionalismo, confidencialidade, privacidade e manutenção de fronteiras adequadas na comunicação digital em saúde (Grajales et al., 2014; Ventola, 2014).
Para as instituições, compreender estas práticas pode contribuir para desenvolver estratégias de comunicação em saúde mais acessíveis e reforçar a capacidade das famílias para identificar informação credível, interpretar criticamente os conteúdos encontrados e utilizar os recursos digitais de forma informada (Kubb & Foran, 2020; Norman & Skinner, 2006).
Importa igualmente considerar que a expansão das possibilidades de acesso à informação digital não significa que todas as famílias disponham das mesmas condições para beneficiar desses recursos. As desigualdades digitais não dizem respeito apenas ao acesso à Internet ou aos dispositivos tecnológicos, envolvendo também diferenças nas competências, nas formas de utilização e nos benefícios que diferentes grupos conseguem retirar dos ambientes digitais (van Deursen & van Dijk, 2014). No domínio da saúde, estas diferenças podem condicionar a capacidade de procurar, compreender e utilizar informação digital, tornando necessário considerar a literacia em saúde digital como parte das desigualdades que atravessam o acesso aos recursos de saúde contemporâneos (Norman & Skinner, 2006).
Talvez a principal transformação não resida, portanto, no desaparecimento das redes tradicionais, mas na diversificação das formas de apoio disponíveis. As famílias podem atualmente mobilizar relações presenciais, profissionais de saúde, informação digital e comunidades de pares de acordo com diferentes necessidades e momentos da parentalidade (Plantin & Daneback, 2009; Strand & Westergren, 2024). Mais do que uma transformação passageira, a integração dos espaços digitais nas redes sociais contemporâneas convida, assim, a repensar a própria forma como o apoio é construído e mobilizado (Rainie & Wellman, 2012; Wellman, 2001). Neste contexto, as comunidades digitais parecem ampliar as redes de apoio que historicamente acompanharam a maternidade, criando novas possibilidades de informação, partilha, proximidade e suporte numa sociedade cada vez mais conectada.
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