Adiamento da maternidade: escolha ou imposição social?

Por Madalena Matos, estudante da licenciatura em Sociologia no Iscte – Instituto Universitário de Lisboa e estagiária de investigação no nascer.pt (CIES-Iscte).

O presente artigo procura analisar o adiamento da maternidade em Portugal, uma realidade que tem vindo gradualmente a tornar-se uma tendência marcante na sociedade portuguesa.

Apresentam-se dados relativos às transformações observadas neste domínio, bem como reflexões acerca dos fatores que explicam a sua evolução. O artigo explora, paralelamente, as perceções dos jovens adultos portugueses relativamente às suas intenções reprodutivas e analisa os constrangimentos que contribuem para o adiamento desta etapa para fases mais tardias das vidas.

Ao longo das últimas décadas, Portugal tem assistido a mudanças profundas nas dinâmicas de fecundidade, em que o adiamento sistemático da entrada na maternidade se consolidou enquanto uma das mudanças demográficas mais expressivas do nosso país.

Este adiamento, ao aproximar as mulheres do seu limite biológico de fertilidade, diminui consequentemente, o seu tempo disponível para terem mais filhos.

Segundo dados divulgados no PORDATA (2025a), é possível verificar um aumento significativo na idade em que as mulheres entram na maternidade. Em 1960, as mulheres portuguesas tinham, em média, o primeiro filho aos 25 anos, valor que foi oscilando de forma crescente até aos tempos mais recentes. Já em 2023, este valor fixou-se nos 30,2 anos, 3,7 anos mais tarde do que no início do século, sendo esta uma das idades médias de maternidade mais altas da Europa.

Perante isto, verificam-se, também, implicações nos níveis de fecundidade em Portugal.

Gráfico 1. Evolução do índice sintético de fecundidade em Portugal e na UE27

Fonte: Elaborado pela autora, com base em dados do Eurostat, disponibilizados pelo PORDATA.

O número de nascimentos em Portugal tem caído progressivamente. Em 1960, o índice sintético de fecundidade [1] rondava os 3,16 filhos por mulher; já em 2024 registou-se um valor de 1,41 (PORDATA, 2026), posicionando-nos num dos níveis de fecundidade mais baixos da Europa.

Em 2013, o país atingiu o nível de fecundidade mais baixo alguma vez registado (1,2), valor de fecundidade classificado como “lowest-low fertility” (Kohler et al., 2002, citado em INE & Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014). Este valor é também inferior àquele que é necessário para assegurar a substituição de gerações (2,1). Na realidade, desde 1982 que o Índice Sintético de Fecundidade (ISF) em Portugal se encontra abaixo desse limiar (PORDATA, 2026).

Este declínio não é um fenómeno exclusivamente português, já que nenhum país europeu tem assegurada a substituição de gerações. No entanto, Portugal encontra-se nos países da UE28 com menores níveis de fecundidade (INE, 2020).

Segundo o PORDATA (2026), o grupo de países da UE27 com Índice Sintético de Fecundidade (ISF) mais elevado em 2024 inclui a Bulgária (1,7) e a França (1,6), bem como a Dinamarca, a Irlanda e a Eslováquia que apresentaram um valor de 1,5. Em contrapartida, no conjunto de países com valores mais baixos de ISF nesse ano, destacam-se a Polónia, a Lituânia e a Espanha, com um valor de ISF de 1,1 e Malta apresenta um valor de 1.

Além do ISF, entre 1960 e 2023, os nascimentos em Portugal caíram para menos da metade. Enquanto no ano de 1960 se registaram cerca de 213 mil nascimentos, em 2024 ocorreram apenas 84 mil (PORDATA, 2025b).

Posto isto, importa questionar quais os motivos que contribuem para esta tendência de fecundidade e, principalmente, para o adiamento da maternidade.

Será o adiamento da maternidade resultado de escolhas estritamente individuais, ou uma realidade moldada por fatores sociais, económicos e estruturais?

De acordo com um relatório publicado pela Merck (2022), apenas 21% dos jovens portugueses da Geração Z têm filhos, o que corresponde a menos 12 pontos percentuais do que a média europeia. Já entre os Millennials, 30% têm filhos, permanecendo, no entanto, abaixo da média europeia.

Paradoxalmente, este estudo revela também que Portugal se destaca por ser um dos países europeus em que as gerações mais novas (Millennials e a Geração Z) mais desejam ter filhos, sendo 82% os que partilham deste desejo. Este valor encontra-se a dez pontos percentuais acima da média europeia (72%).

Ou seja, ter filhos parece constituir um objetivo amplamente valorizado nas trajetórias de vida da maioria dos jovens adultos em Portugal. No entanto, conforme verificámos até agora, este fenómeno ocorre cada vez menos e concretiza-se cada vez mais tarde face ao idealizado.

Deste modo, o adiamento da maternidade parece ultrapassar o domínio das escolhas individuais, sendo fortemente condicionado por um conjunto de fatores económicos, sociais, estruturais e profissionais, bem como por circunstâncias de vida dos indivíduos que impactam de forma significativa esta decisão.

De acordo com Silva (2002), o 25 de abril de 1974 foi um ponto de viragem estrutural, que impulsionou transformações na parentalidade e nos níveis de fecundidade. Esta autora evidencia algumas das mudanças mais notórias neste fenómeno da fecundidade, podendo destacar-se:

  • A difusão de métodos contracetivos, permitindo às mulheres um maior controlo no que toca às suas escolhas reprodutivas, bem como, a redução do número de gravidezes não planeadas;
  • Alargamento do recurso ao planeamento familiar;
  • A crescente valorização da educação e o progressivo alargamento dos percursos escolares, o que resulta numa inserção mais tardia no mercado de trabalho, saída mais tardia da casa dos pais, resultando desta forma numa entrada mais tardia na parentalidade;
  • O aumento da inserção da mulher no mercado de trabalho;
  • Mudanças em valores sociais, nomeadamente a perda de centralidade da religião e, consequentemente, a maior aceitação social do divórcio;
  • O aumento do custo de vida e de criação dos filhos;
  • A influência do meio social envolvente (família, amigos e colegas de trabalho) nas decisões reprodutivas.

Adicionalmente, segundo uma publicação da Fundação Francisco Manuel dos Santos (2025), os fatores que sustentam o adiamento da maternidade em Portugal na atualidade resultam da articulação entre dimensões económicas, sociais e individuais, nomeadamente:

  • Maior investimento por parte das mulheres na carreira profissional, o que faz com que tenham filhos mais tarde;
  • Valorização da concretização de objetivos pessoais, como viajar, e da consolidação de uma carreira profissional antes da parentalidade, conduzindo a que apenas numa fase posterior o casal pondere ter filhos;
  • Perceção de insuficiência de apoios e subsídios por parte do Estado que incentivem os casais à parentalidade;
  • Incerteza sobre o futuro, associada à instabilidade laboral, resultando numa maior ponderação no que toca à decisão de ter filhos;
  • Reduzida oferta por parte das empresas de regimes de trabalho em part-time, dificultando a conciliação entre a vida profissional e familiar;
  • Elevadas exigências de disponibilidade associadas à parentalidade, especialmente percecionadas por parte das mães.

O Inquérito à Fecundidade de 2013, realizado pelo INE em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, destaca, no seguimento deste fenómeno, motivos que se relacionam com os elevados “custos financeiros” inerentes à criação de filhos e com a  “dificuldade em conseguir emprego” (INE & Fundação Francisco Manuel dos Santos, pp. 66-67). Estes constrangimentos dificultam o estabelecimento de condições essenciais para ter filhos, como a independência financeira e consequente acesso à habitação. Acresce ainda, o aumento significativo dos preços da habitação, que tem dificultado a saída dos jovens adultos da casa dos pais, contribuindo para o adiamento dos projetos de construção familiar. Importa ainda referir a precariedade laboral sentida por muitos jovens adultos portugueses e a necessidade de segurança económica.

Este adiamento pode também ser resultado dos desafios que a gravidez e a maternidade podem trazer no seio laboral. Apesar da proteção legal, existem diversos relatos de mulheres que enfrentam desigualdades laborais aquando da sua gravidez, resultando em situações de cortes no salário ou até mesmo despedimento. Como é destacado pelo Observador (2025), citando o PAN, “em 2024, cinco grávidas foram despedidas por dia” e “pelo menos 1866 grávidas e recém-mães foram dispensadas pelas empresas onde trabalhavam”, sendo que a maioria tinha contratos a termo e uma centena eram trabalhadoras pertencentes aos quadros.

Um adiamento de maternidade menos discutido, mas igualmente relevante, relaciona-se com o adiamento do segundo filho, marcado por um “compasso de espera” após o nascimento do primeiro filho, em busca de melhores dias e maior estabilidade. No entanto, “não é raro que este compasso de espera se torne cúmplice da renúncia de ideais e projetos de fecundidade de dois ou três filhos” (Cunha, 2007, 2010, citado em INE & Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014, p.24).

São então o prolongamento do ciclo de estudos, a entrada tardia no mercado de trabalho, o desejo de progressão na carreira, a falta de estabilidade financeira e o elevado custo de vida, os principais motores que impulsionam o adiamento da maternidade, sendo destacado pelo INE & Fundação Francisco Manuel dos Santos (2014) que “a precarização das condições de vida e a incerteza face ao futuro, na ausência de políticas públicas de família proativas, podem colocar sérios entraves à realização dos ideais de fecundidade” (p.28).

No que toca a medidas de incentivo à natalidade, o INE (2020) refere que 89,8% das mulheres e 85,9% dos homens inquiridos consideram fundamental a existência de incentivos à natalidade, apontando a necessidade de reforço de medidas como a flexibilização de horários para trabalhadores com filhos pequenos, a expansão do acesso a creches e atividades de tempos livres (ATL), assim como o aumento dos subsídios de apoio às famílias, a redução dos impostos para as famílias com filhos e a atribuição de incentivos fiscais às entidades empregadoras com práticas que apoiem os trabalhadores com filhos.

Os resultados permitem concluir que o adiamento da maternidade em Portugal, mais do que uma escolha exclusivamente individual, manifesta-se também como uma adaptação ao contexto social vivido no país, marcado por constrangimentos que influenciam fortemente as trajetórias dos jovens adultos.

Portugal é um país em que a vontade de ter filhos, expressa pelos jovens adultos, é notória; no entanto, a sua concretização é frequentemente adiada devido a fatores externos, nomeadamente de natureza económica, laboral e habitacional. Este adiamento reflete tensões entre as aspirações dos jovens adultos portugueses e os constrangimentos que as dificultam. Assim, a maternidade tende a ser transferida para uma etapa de vida mais avançada e, presumivelmente, mais estável e segura do ponto de vista económico.

Bibliografia:

Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2025, 8 de julho). Cada vez menos? https://ffms.pt/pt-pt/estudos/cada-vez-menos

Instituto Nacional de Estatística. (2003). Conceito – Índice sintético de fecundidade. https://smi.ine.pt/Conceito/Detalhes?id=5310&lang=PT

Instituto Nacional de Estatística. (2020). Inquérito à fecundidade 2019. Instituto Nacional de Estatística. https://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=467568911&att_display=n&att_download=y

Instituto Nacional de Estatística, & Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2014). Inquérito à fecundidade 2013. https://ffms.pt/sites/default/files/2022-08/inquerito-a-fecundidade-2013.pdf

Merck Group. (2022). Sustentável ou nada: O futuro que os millennials e a geração Z da Europa querem. https://www.merckgroup.com/pt-pt/Merck%20Survey_sustentavel%20ou%20nada_O%20futuro%20que%20os%20millennials%20e%20a%20gera%C3%A7%C3%A3o%20Z%20da%20Europa%20querem_estudo%20completo.pdf

PAN propõe maior proteção contra despedimentos de grávidas e trabalhadores em licença parental. (2025, 8 de agosto). Observador. https://observador.pt/2025/08/08/pan-propoe-maior-protecao-contra-despedimento-de-gravidas-e-trabalhadores-em-licenca-parental/

PORDATA. (2025a). Idade média da mãe ao nascimento do primeiro filho.  https://www.pordata.pt/portugal/idade+media+da+mae+ao+nascimento+do+primeiro+filho-805

PORDATA. (2025b). Nados-vivos de mães residentes em Portugal: total e fora do casamento. https://www.pordata.pt/portugal/nados+vivos+de+maes+residentes+em+portugal+total+e+fora+do+casamento-14

PORDATA. (2026). Índice sintético de fecundidade. https://www.pordata.pt/europa/indice+sintetico+de+fecundidade-1251

Silva, F. (2002). Projecção das taxas de fecundidade específicas por idades no horizonte de longo prazo (2001-2050): Estudo de um modelo de previsão com séries temporais. Revista de Estudos Demográficos, 32, 59-79. https://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=107222&att_display=n&att_download=y

[1]Índice  Sintético de Fecundidade: Número médio de crianças vivas nascidas por mulher em idade fértil (dos 15 aos 49 anos de idade), admitindo que as mulheres estariam submetidas às taxas de fecundidade observadas no momento. Valor resultante da soma das taxas de fecundidade por idades, ano a ano ou grupos quinquenais, entre os 15 e os 49 anos, observadas num determinado período (habitualmente um ano civil). (INE, 2003)