Promoção da saúde reprodutiva: informar é, sobretudo, cuidar

Wanda Galvão, Doutoranda em Ciências da Comunicação no ISCTE-IUL

Versão adaptada de um artigo publicado inicialmente no Jornal Público (online), no dia 4 de fevereiro de 2026

Falar sobre infertilidade continua a ser, para muitas pessoas, uma experiência marcada pelo silêncio. Apesar de a infertilidade ser reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma condição de saúde e de afetar cerca de uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva (World Health Organization [WHO], 2023), o tema permanece rodeado de tabus, desinformação e narrativas frequentemente marcadas pelo julgamento social.

Mais do que um fenómeno biológico, a infertilidade é também uma experiência profundamente social, emocional e cultural. Em Portugal, o impacto da experiência da infertilidade é amplificado por transformações estruturais que têm vindo a redefinir a maternidade: o adiamento dos projetos reprodutivos, a instabilidade laboral, as desigualdades socioeconómicas e a ideia socialmente partilhada de que a fertilidade feminina pode ser prolongada indefinidamente pela medicina, reforçada pela falta de informação clara e acessível sobre os reais limites e taxas de sucesso dos tratamentos de procriação medicamente assistida.

A realidade mostra o contrário relativamente aos limites da medicina. A literacia em saúde reprodutiva continua a ser insuficiente. Muitas mulheres chegam ao diagnóstico de infertilidade sem terem tido acesso prévio a informação clara sobre o impacto da idade na fertilidade ou sobre as reais probabilidades de sucesso dos tratamentos de procriação medicamente assistida. Quando essa informação chega, surge frequentemente tarde e acompanhada de frustração, sofrimento emocional e sentimentos de culpa.

O problema não reside apenas na falta de informação, mas também na forma como essa informação é comunicada. Uma linguagem excessivamente técnica, centrada apenas na dimensão biomédica, torna-se inacessível para os leigos e pode reforçar desigualdades. Comunicar sobre infertilidade exige mais do que informação clínica; exige empatia, clareza e responsabilidade ética. Informar não significa alarmar, mas sim ampliar o conhecimento público com base na evidência científica.

Em Portugal, o acesso aos tratamentos de fertilidade através do Serviço Nacional de Saúde é limitado por critérios etários. Após os 40 anos, muitas mulheres veem-se frequentemente encaminhadas para o setor privado, onde os custos são elevados e nem sempre comportáveis. Este cenário aprofunda desigualdades e evidencia fragilidades nas políticas públicas de saúde reprodutiva, tanto na dimensão do acompanhamento, como na da comunicação

Dados da Associação Portuguesa de Fertilidade indicam que cerca de 17.500 mulheres e casais procuram atualmente apoio relacionado com situações de infertilidade (Associação Portuguesa de Fertilidade, 2025). Estes números mostram que não se trata apenas de um problema individual, mas de uma questão de saúde pública que exige respostas organizadas ao nível da prevenção, promoção e proteção da saúde.

A Associação Portuguesa de Fertilidade desenvolve, há quase duas décadas, um trabalho de apoio a mulheres e famílias, defendendo o reconhecimento da infertilidade como uma prioridade de saúde e a eliminação de barreiras no acesso à procriação medicamente assistida.

Também na esfera académica, o nascer.pt — Laboratório de Estudos Sociais sobre o Nascimento — tem contribuído para ampliar o debate público e o acesso à informação científica nas áreas da saúde reprodutiva, fertilidade, gravidez e parentalidade.

Durante décadas, os sistemas de saúde investiram — e bem — em campanhas de contraceção e autonomia reprodutiva. Hoje, torna-se igualmente necessário complementar esse esforço com estratégias de educação sobre fertilidade ao longo do ciclo de vida, integradas na escola, nos cuidados de saúde primários e nos meios de comunicação social. As mulheres têm direito a decidir com base em informação rigorosa, não no silêncio.

Promover uma comunicação em saúde mais humana é, por isso, uma forma de cuidado. Falar sobre fertilidade é falar de autonomia, dignidade e justiça social. Promover informação acessível e responsável significa garantir às mulheres o direito de escolher com consciência, apoio e respeito pelas suas trajetórias de vida.