Mães – Mulheres protagonistas: Porque é que o parto é um assunto feminista?

Autora: Filipa Lowndes Vicente

8 de Março 2022. Mais um Dia da Mulher. Mais um dia em que se fala mais sobre as múltiplas faces da discriminação, desigualdade e violência a que as mulheres são sujeitas por serem mulheres. Mais um dia em que se fala mais das mudanças positivas, da crescente presença, voz e poder das mulheres no espaço público e político, de produção de conhecimento e de criatividade. A maternidade está no centro de grande parte dos temas feministas. Cruza-se com as mais diferentes esferas – da desigualdade salarial, à progressão profissional, da partilha do trabalho doméstico aos modos distintos como se educam as crianças de acordo como o seu género, encorajando as meninas ao cuidado maternal e os meninos a uma maior liberdade e individualidade no seu relacionamento com o mundo e com os outros. A gravidez, o parto e o aleitamento materno também são uma questão feminista.

Desde o século XVIII e até muito recentemente, a cultura do parto medicalizado foi do domínio masculino e as mulheres, enfermeiras e parteiras, assim como as parturientes, passaram a ocupar um papel secundário (quando na segunda metade do século XIX as mulheres foram aceites nas faculdades de medicina inglesas, por exemplo, apenas a ginecologia e obstetrícia lhes estava interdita). Historicamente, a parturiente começou a ser obrigada a estar deitada (como uma “doente”) quando a figura masculina se começou a substituir à da parteira feminina, quando o nascimento passou a ser feito nos hospitais, quando a partir do século XVII se inventaram instrumentos como o fórceps e quando as posições livres, os gritos ou os movimentos durante o trabalho de parto começaram a ser associados às mulheres do povo, ou às mulheres de outras culturas, consideradas menos civilizadas.

Assim, uma posição que nalguns casos – como no recurso ao fórceps – era imprescindível, transformou-se na «única» forma de parir. A exceção converteu-se em norma, numa tradição inventada, que só a obstetrícia mais moderna das últimas décadas se atreveu a questionar. A posição supina e a imobilidade dificultam a eficácia das contrações, tornam-nas mais dolorosas, prejudicam o processo de dilatação e de expulsão, contrariam a força da gravidade que facilita o parto e, ao prejudicar a circulação, podem mesmo afetar o bem-estar fetal. A pergunta era simples e parecia demasiado óbvia: se a maior parte das mulheres, podendo escolher, não vive o seu parto imóvel e reclinada, porquê obrigá-las a isso? Se o movimento e as posições verticais ajudam à eficácia das contrações, à dilatação e à expulsão, porquê contrariar as possibilidades fisiológicas do próprio corpo?

Porque a história da medicina demonstra que, entre as descobertas da evidência médica e a democratização das suas práticas, pode decorrer muito tempo; porque faz parte de um modelo de parto em que a intervenção dos profissionais de saúde precisava da visibilidade e controlo sobre a área do corpo na qual estava a trabalhar; porque no interior de uma cultura obstétrica tradicional, é mais fácil e mais prático que as parturientes estejam quietas (deitadas) e em silêncio (com anestesia) mesmo que isso, a curto e a longo prazo, lhes seja prejudicial; e porque é mais fácil, em geral, controlar mulheres caladas e passivas.

A medicina obstétrica contemporânea também beneficiou da reflexão feminista que, desde os anos 70, veio questionar os poderes das mulheres na prática da medicina, e também na experiência do parto. As inúmeras vantagens de uma parturiente consciente, informada, com um papel ativo no parto, ou seja, com poder, são óbvias: para a saúde, física e psicológica de cada mãe e criança específica, para o bem-estar familiar em geral, mas também para a economia da saúde. As conclusões de inúmeros estudos teórico-práticos realizados em diferentes países nos últimos decénios, e reiterados pela Organização Mundial de Saúde nas suas recomendações acerca do parto, revelam que, quando as mulheres têm um papel ativo no momento do parto, e quando não estão sujeitas às rotinas hospitalares sem nenhuma justificação científica a não ser a de serem mais práticas para os profissionais de saúde, para a gestão do espaço disponível, e para os horários de escritório que algumas maternidades pretendem impor ao trabalho de parto, a necessidade de recorrer à intervenção médica diminui drasticamente. Também diminui drasticamente as muitas formas de violência obstétrica, aquelas que deixam marcas visíveis e invisíveis. Na mesma medida em que aumenta a qualidade da experiência do nascimento para a mãe, para a criança e para a família.

Muitos países com índices altos de desenvolvimento já ultrapassaram o período de protagonismo do modelo de parto medicalizado e de uma filosofia que associava segurança à quantidade de instrumentos e de tecnologia utilizada. Em que a mulher era uma «paciente» e o parto um «evento médico». Em que o corpo feminino era imobilizado com mobiliário médico, gestos e atos que contrariavam as suas possibilidades fisiológicas. Uma fase, enfim, em que a monitorização e interferência contínuas no parto eram consideradas sinónimos de progresso, em que a prevenção de um eventual risco tendia a presidir a todos os partos, e que este era entendido como patologia – a criança tinha que ser extraída do ventre materno – e não como um ato fisiológico que a maior parte das mães e das crianças detinham a capacidade para protagonizar. A obstetrícia alcançou finalmente um outro equilíbrio: entre o usufruto dos enormes progressos no saber da medicina e o da eliminação dos excessos interventivos, que já deram provas das suas desvantagens. Mas os ritmos deste processo não têm sido os mesmos em todos os países da Europa. E em Portugal ainda há muito a fazer.

Não é por acaso que, nas últimas décadas, a desmedicalização consciente do parto se tem vindo a fazer precisamente nos países que apresentam melhores índices de desenvolvimento, alfabetização, direitos das mulheres, e condições de vida. A medicina obstétrica atual que está na linha da frente já não tem necessidade de se afirmar através de um novo-riquismo tecnológico que crie a ilusão de tudo controlar. Uma das suas prioridades continua a ser a segurança. Mas em vez de se concentrar na resolução dos problemas, procura simplesmente evitá-los. Porque um parto mais fácil – onde a mulher tem mais poder, onde os seus tempos são respeitados, onde o foco está na individualidade da sua experiência única – é um parto mais seguro.

Este modelo de parto requer mais de todas e de todos. Longe de pôr em causa o papel dos profissionais de saúde, a obstetrícia moderna exige muito mais deles. Incentiva-os a repensar o porquê dos seus gestos e a questionar muitas das práticas aprendidas e repetidas. Obriga-os a uma atitude mais personalizada e individualizada em relação a cada parto: a distinguir aqueles casos em que a saúde da mãe ou da criança justifica uma atitude interventiva da maioria das parturientes, onde a interferência sistemática e de rotina pode, pelo contrário, provocar um círculo vicioso de complicações. Fomenta o diálogo com os seus colegas de trabalho, assim como com as mães e os pais. Pressupõe uma visão global da medicina, centrada nos interesses da pessoa humana e atenta aos aspetos fisiológicos, hormonais, psicológicos e sexuais do parto. Tanto como aos seus aspetos patológicos. O parto é uma razão diferente de todas as outras razões que levam uma pessoa a estar internada num hospital. E as suas características deviam ser tidas em conta.

Este modelo de nascimento exige mais das mulheres porque também prevê mulheres mais participativas e com mais poder, conscientes das suas forças e das possibilidades do seu corpo. É um modelo de parto mais feminista.


Artigos de Filipa Lowndes Vicente sobre parto e maternidade:

  • “Não só ‘onde se nasce’ também ‘como se nasce’”, Público, 14 de Outubro 2012.
  • “A hormona do amor”, Pais e Filhos, n.º 204, Janeiro 2008, pp. 28-31.
  • “O período perinatal: investir no futuro”, Pais e Filhos, n.º 199, Agosto 2007, pp. 29-34.
  • “A ecologia do nascimento”, Pais e Filhos, n.º 198, Julho 2007, pp. 24-30.
  • “Por uma outra forma de nascer em Portugal”, Pais e Filhos, n.º 192, Janeiro 2007, pp. 18-24.