Não só “onde se nasce”, também “como se nasce”

Debate Maternidades – Filipa Lowndes Vicente

Artigo publicado no Público, 2012

Nos últimos anos, foram fechadas várias maternidades portuguesas. O fecho da Maternidade Alfredo da Costa insere-se neste processo. A oferta de cuidados médicos nas mesmas unidades hospitalares foi considerada inadequada, para garantir um processo de nascimento em segurança.

Porém, as políticas de saúde de alguns países com índices mais altos de desenvolvimento vão no sentido inverso.

Ou seja, a tendência é criar pequenas unidades, mais próximas de um espaço acolhedor, onde as parturientes de baixo risco e os recém-nascidos beneficiem de um acompanhamento humanizado e personalizado. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) defende que o nascimento, acompanhado por parteiras, deveria ser perto do lugar onde vive a mãe, em vez de estas serem encaminhadas para grandes unidades de obstetrícia.

Segundo o novo modelo, as grávidas consideradas “de risco” – algo que nas últimas décadas se tornou muito mais fácil prever graças aos progressos nos métodos de diagnóstico, nos cuidados de saúde em geral e na educação das mulheres – são encaminhadas para hospitais. Nestes casos, será mais provável que se recorra à indução do trabalho de parto, à imobilidade da parturiente, ao soro, ao jejum, à episiotomia, aos fórceps, à ventosa ou à cesariana. Todos estes considerados métodos, instrumentos e práticas médicas que podem ajudar a salvar vidas mas que, quando utilizados de forma rotineira, a pretexto de um controlo preventivo, tendem a gerar complicações desnecessárias. E, por vezes, até a criar novos riscos e patologias.

Existem razões históricas que ajudam a compreender a fase de medicalização excessiva do parto que estamos hoje a viver em Portugal. Até há umas décadas, Portugal era o país da Europa onde era mais perigoso nascer e fazer nascer. Felizmente, num curto espaço de tempo diminuíram os números assustadores de mortalidade materna e infantil e isto também se deve, sem dúvida, a uma maior intervenção médica durante o parto. O problema é que se passou para uma fase de medicalização extrema, onde um parto “natural” de uma mulher saudável é sujeito àquilo que tem sido descrito como uma “cascata de intervenções” escusadas.

Pelo contrário, naqueles países com índices maiores de desenvolvimento caminha-se num outro sentido – o de conjugar as vantagens da ciência médica com as vantagens da fisiologia humana.

E isto tem sido feito com uma redução consciente da intervenção médica rotineira no processo de nascimento e com uma abordagem individualizada a cada parturiente.

O reconhecimento das capacidades humanas para fazer nascer e o incentivo ao poder da mãe na sua experiência são outros aspectos de uma nova cultura do nascimento. Quando as condições de intimidade e liberdade da parturiente são respeitadas, quando o acompanhamento médico existe mas não é invasivo, quando o apoio dos especialistas é tão emocional como técnico, quando se evitam as monitorizações e rotinas hospitalares desnecessárias e quando os profissionais de saúde têm em conta os aspectos fisiológicos, hormonais e psicológicos de cada um dos partos que acompanham, tanto como os seus aspectos patológicos, é mais provável que o parto corra bem e que não seja necessário intervir. A longo prazo, as vantagens económicas desta abordagem do nascimento são óbvias. A curto prazo implicam um investimento na formação e informação.

Talvez agora, que os números de mortalidade materna e infantil já não nos remetem para um passado de pobreza e analfabetismo, possamos também começar a pensar noutras questões em relação aos lugares onde se nasce. A questão deixará, então, de ser quantas maternidades se devem fechar, mas como as transformar.

Ora, uma tal transformação passa por reeducar tanto os profissionais de saúde, como as mães e os pais. O progresso na cultura do nascimento não é nascer em blocos de parto. O progresso é fazer nascer sem correr o risco de morrer, mas também poder fazê-lo de uma forma não violenta, humana e num ambiente de liberdade, intimidade e afecto.

Existem, em Portugal, muitos profissionais de saúde, a começar por muitos médicos, e muitas mãe e pais interessados nessa transformação. Será que já estamos preparados para dar início a uma nova fase na nossa cultura do nascimento? Pessoalmente, penso que sim.

Historiadora, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa