O que querem as mulheres no parto? Algumas pistas do Babies Born Better Portugal.

 

O inquérito Babies Born Better é um projeto de investigação acolhido pelo CIES através do qual se procuram conhecer as experiências subjetivas do parto. Surgiu de um projeto internacional, face à constatação de que, quando se pretende avaliar, quando queremos medir a qualidade dos cuidados de saúde materna, quando queremos olhar para os serviços de saúde materna de forma mais ampla e, até, de forma mais crítica, no sentido de tentar perceber o que será necessário melhorar, o primeiro elemento a que recorremos são os indicadores de qualidade objetivos e, se quisermos ser ainda mais específicos, são os indicadores de mortalidade, mortalidade materna e mortalidade perinatal. Como reação a esta visão redutora e positivista, um grupo de investigadoras/es de um projeto de colaboração internacional de 4 anos, de 2010 a 2014, chamado COST Action IS0907, reuniu-se para trabalhar sobre estas questões e desenvolver um novo instrumento para aferição da qualidade dos cuidados de saúde materna que privilegiasse a experiência subjetiva das mulheres e a sua própria descrição dessa experiência. Existia, no grupo, o reconhecimento de que a centralidade dos indicadores objetivos não transmitia a diversidade regional entre países e dentro do próprio país, além de que revelava pouco potencial para a melhoria em países onde foram já atingidas taxas de mortalidade materna e perinatal aceitáveis. Além de insuficiente, o foco nestes indicadores ignora o potencial de uma avaliação e melhoria baseada na experiência que é vivida pelas pessoas, pelas mulheres, durante o parto.

O que parece ser fantástico e muito promissor neste inquérito é o facto de que, por um lado, ele é muito transversal. Portanto, é um inquérito que pode ser aplicado em diferentes contextos nacionais, com as suas diferenças e especificidades, como sejam o português, o norueguês ou o chinês, abrindo caminho para uma análise comparativa entre dois ou mais países. Apesar de transversal, o Babies Born Better não é um instrumento com respostas padronizadas. Pelo contrário, ele permite que cada pessoa que responde utilize as suas próprias palavras para responder. A segunda secção do inquérito, dedicada às experiências subjetivas de parto, era composta por 4 perguntas. Uma primeira pergunta sobre as melhores coisas dessa experiência; uma segunda pergunta sobre o que teriam mudado nessa experiência, se tivessem essa possibilidade; uma terceira pergunta onde se pedia uma descrição honesta da experiência do parto, e uma quarta pergunta onde de poderiam deixar comentários adicionais. Para facilitar, estas questões serão referidas como “as melhores coisas”, “o que mudaria”, “descrição da experiência” e “comentários”. Em cada uma das duas primeiras perguntas – melhores coisas e o que mudaria – as pessoas podiam dar até três respostas, ou seja, podiam escrever três palavras, ou três frases, ou três descrições mais longas. Na descrição da experiência podiam escrever até seis palavras ou frases. E a última questão, de comentário, aceitava uma palavra ou frase.

A nível internacional, este inquérito foi aplicado em cerca de 30 países e, em todos eles, foram feitas as mesmas perguntas. O inquérito foi traduzido em inúmeras línguas, para que pudesse ser aplicado em todos esses países. O trabalho foi maioritariamente assegurado por voluntários e voluntárias, uma vez que há muito poucos países que obtiveram algum tipo de financiamento para o desenvolvimento e a análise do BBB, daí que também haja diferenças importantes no número de respostas em cada país e na profundidade da análise dos dados disponíveis.

Em Portugal, nesta primeira versão do inquérito, obtivemos cerca de 1600 respostas. No entanto, quando olhámos para a segunda secção do inquérito, a qualitativa, a parte relativa às experiências de parto propriamente ditas, houve muitas pessoas que tinham dado respostas incompletas ou que não tinham sequer respondido às questões desta segunda secção. Como tal, fomos fazendo uma limpeza do número de inquiridas e acabámos com de 1348 respostas. É então sobre esse número que depois nós acabámos por trabalhar.

Olhando então só para a secção qualitativa, sobre as experiências de parto, porque é essa secção mais relevante do inquérito. Por agora, vamos apenas olhar para a forma como as pessoas responderam às diferentes questões. Inicialmente referi aquelas quatro questões da secção qualitativa: as melhores coisas, o que mudaria, a descrição da experiência e os comentários. É interessante só por si constatar que uma grande parte das respostas está concentrada na questão sobre “as melhores coisas”. As pessoas utilizaram mais palavras e utilizaram mais o seu espaço para descrever os aspetos positivos da experiência, e não utilizaram tantas palavras e tantas respostas para descrever os aspetos a melhorar. Isto é já digno de análise. Podemos simplesmente dizer que o parto, socialmente, ainda é tido como um evento positivo, é maioritariamente visto como algo feliz, que, como já foi dito antes, basta que a mãe e o bebé tenham sobrevivido para se considerar que correu tudo bem. Neste sentido, é também esta representação social do parto enquanto evento positivo que está aqui refletida nesta distribuição desigual do número de respostas às diferentes questões. E, no seu conteúdo, vemos também que, de facto, a maior parte das pessoas relatou experiências, de uma forma geral, positivas. Portanto, a questão sobre as “melhores coisas” permitia 3 palavras ou frases e obtivemos, em média, 2,7 respostas. A questão sobre “o que mudaria” permitia também 3 respostas e obtivemos, em média, apenas 2. A descrição da experiência, que aceitava até 6 palavras ou frases, teve, em média, 4 respostas. E cerca de metade das pessoas resolveu deixar um comentário também.

Dado o elevado número de respostas que obtivemos, a nossa análise à secção qualitativa recorreu inevitavelmente a estratégias quantitativas de análise, com a identificação da frequência das palavras usadas e o agrupamento dessas palavras em grupos. As quatro principais temáticas que surgiram acabam por estruturar a nossa análise e discussão dos resultados: atores profissionais, intervenções, serviços hospitalares e características dos cuidados. Ou seja, as mulheres quando relatam a sua experiência, neste inquérito, relataram-na fazendo menção aos profissionais, às intervenções que aconteceram, às características dos serviços hospitalares e, também, às características dos cuidados recebidos – em particular, as características da relação que foi estabelecida com os profissionais.

Uma estratégia de análise que se revelou interessante foi a comparação dos padrões de resposta de acordo com o local do parto – hospital público, hospital privado, e domicílio. Criámos então uma subamostra para cada um destes locais, com todos os partos do hospital público mais frequente, todos os partos do hospital privado mais frequente, e todos os partos no domicílio. Comparando a distribuição das categorias nestes três locais de parto, percebemos que:

  • Num hospital público, as respostas fazem referência aos diferentes profissionais, às intervenções, às características dos cuidados ou à relação que estabelecem com esses profissionais. Há um grande protagonismo dos profissionais, do seu papel e da sua intervenção nas descrições dos partos no hospital público. A presença dos profissionais é uma das componentes mais importantes e mais influentes, se não a mais influente, na experiência de parto deste grupo de mulheres.
  • No grupo do hospital privado não parece haver grande diferença com o grupo do hospital público, embora pareça haver uma referência ligeiramente menos frequente às intervenções e aos diferentes profissionais.
  • Mas quando olhámos para o grupo de mulheres que teve um parto em casa, a frequência das diferentes categorias nas respostas apresenta um padrão bem diferente. A experiência do parto é principalmente reportada não tanto fazendo referência aos profissionais, ao seu papel e às suas intervenções, mas principalmente à relação estabelecida, à componentes do cuidado, e às características do espaço de uma forma mais subjetiva, no sentido de referir que “havia calma, havia respeito”. Parece que, quando reportam a sua experiência de parto em casa, as mulheres recorrem muito mais à descrição das condições que tinham, o ambiente que era criado e a relação que se estabelecia com o profissional, e não tanto àquilo que o profissional fez ou o que não fez.

Concluindo, com esta análise tornou-se evidente que, para a grande maioria das mulheres, a experiência do parto é fortemente condicionada pela prestação dos profissionais de saúde e pelas suas competências relacionais, podendo influenciar positiva ou negativamente esta experiência. Num olhar mais minucioso, diferenciando os três locais de parto, não só a experiência subjetiva das mulheres é distinta, como a própria forma como estas experiências são reportadas parece revelar diferenças interessantes, tornando visíveis estratégias narrativas específicas para cada local – hospital publico, hospital privado e domicílio.

Mário Santos

Adaptado de:

Santos, M. (2019). Os cuidados de saúde materna na perspetiva das utilizadoras: Conclusões do Babies Born Better Portugal. In D. M. Neves, M. Santos, & S. Pintassilgo (Eds.), Nascimento e outros debates: Género, parentalidade e criação (pp. 65–71). Lisboa: CIES-IUL.